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Archive for the ‘Tentativas’ Category

As origens da língua Portuguesa…(1)

Não veja isto como um tratado da origem da língua Portuguesa… diria antes, que é um apanhado de um arrazoado de visitas a páginas da Web, encontradas aqui e ali e recordações de estudo com mais de 40 anos.

Tenho a esclarecer e antes de julgar este trabalho, que este seu amigo, é mais da área das ciências, que das letras, gosta bastante de leitura, mas é pelo prazer do prazer, assim sendo e depois deste intróito de justificação, aqui vai, a minha pequena contribuição, para se entender a origem do falar e escrever Português.

Escrevi, no meu espaço em Figuras do Trovadoresco galaico-português alguma matéria que pode completar este tema.( http://webintercam.spaces.live.com/blog/cns!185B8A0F5289E719!1386.entry)

As Origens

  • Indo-europeia
  • Itálica
  • Românica-ocidental
  • Galo-Ibérica
  • Ibero-romana
  • Ibero-ocidental
  • Galaico-Português
  • estas são as origens do Português

O Indo-europeu é uma ampla família linguística que engloba a maior parte das línguas europeias antigas e actuais. Tem este nome porque corresponde à região geográfica que se estende da Europa e Irão até a Índia setentrional. São cerca de 450 línguas, faladas actualmente por três biliões de pessoas.

Há muito tempo que se tem consciência da semelhança impressionante entre certas línguas.

No final do século XVIII, alguns linguistas começaram a dar-se conta de que algumas línguas antigas da Europa e da Ásia, nomeadamente o latim, o grego e o sânscrito apresentavam semelhanças tão notáveis em suas gramáticas que indicavam a existência de uma origem comum. Essa célebre observação, feita em 1786 por Sir William Jones, marca o início do reconhecimento oficial do indo-europeu como uma família linguística. Logo ficou claro que o gótico (e as outras línguas germânicas), o persa antigo (e as outras línguas iranianas) e as línguas célticas também tinham origem comum, assim como as línguas eslavas, o albanês e o arménio. Um século mais tarde, textos escritos em várias línguas, há muito extintas, foram desenterrados na Anatólia e na Ásia Central. Depois de decifrados esses documentos, provou-se que haviam sido escritos em antigas línguas indo-europeias: o hitita (e algumas outras línguas da Anatólia), no primeiro caso, e o tocariano no segundo. Umas poucas outras antigas línguas indo-europeias foram descobertas em inscrições, mas são tão precariamente documentadas que pouco é possível saber a seu respeito.

As línguas românicas ou línguas latinas são um grupo de idiomas proveniente da família mais vasta das línguas indo-europeias, que se originaram a partir da evolução do latim (especificamente, do latim vulgar falado pelas classes populares).

Actualmente, são constituídas pelos seguintes idiomas principais, também conhecidos como línguas neolatinas: português, espanhol, catalão, italiano, francês e romeno. Há também uma grande quantidade de idiomas usados por um menor número de falantes, como o galego, o occitano (de Provença, França), o sardo e o romanche, uma das línguas oficiais da Suíça; e dialectos (aragonês, asturiano, valenciano, e muitos outros espalhados pela Europa Central e pela América Latina).

Distribuição geográfica

Legenda: laranja-português; verde-espanhol; azul-francês; amarelo-italiano; vermelho-romeno (cores escuras indicam língua oficial; cores claras, língua de uso comum).

Além de serem faladas em várias regiões da Europa, as línguas românicas são-no, igualmente, em diversos países de outros continentes, como nas Américas (principalmente na América Latina e Canadá, em Québec), África e Ásia.

Devido à semelhança entre estes idiomas e na tentativa de promover e assegurar o plurilinguismo e o multiculturalismo da Europa, foram desenvolvidos, com o apoio da União Europeia, vários projectos interuniversitáios:

· EuRom4

· Galatea (http://www.u-grenoble3.fr/galatea/recherche.htm)

· Galanet (http://www.galanet.be)

· EuroComRom (http://www.eurocom-frankfurt.de/language.htm)

· Lalita (http://www.ciid.it/lalita/)

O conceito que se encontra na base destes projectos é o de intercompreensão.

Exemplos para comparar

O artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos em várias línguas neo-latinas:

Latim:

OMNES HOMINES LIBERI ÆQVIQVE DIGNITATE ATQVE IVRIBVS NASCVNTVR. RATIONE CONSCIENTIAQVE PRÆDITI SUNT ET ALII ERGA ALIOS CVM FRATERNITATE SE GERERE DEBENT.

Castelhano ou espanhol:

Todos los seres humanos nacen libres e iguales en dignidad y derechos y, dotados como están de razón y conciencia, deben comportarse fraternalmente los unos con los otros.

Aragonês:

Toz os sers umanos naxen libres y iguals en dinnidá y dreitos. Adotatos de razón y conzenzia, deben comportar-sen fraternalmén unos con atros.

Asturiano:

Tolos seres humanos nacen llibres y iguales en dignidá y drechos y, pola mor de la razón y la conciencia de so, han comportase hermaniblemente los unos colos otros.

Auvernês (noroccitano):

Ta la proussouna neisson lieura moé parira pà dïnessà mai dret. Son charjada de razou moé de cousiensà mai lhu fau arjî entremeî lha bei n’eime de freiressà.

Catalão:

Tots els éssers humans neixen lliures i iguals en dignitat i en drets. Són dotats de raó i de consciència, i els cal mantenir-se entre ells amb esperit de fraternitat.

Corso:

Nascinu tutti l’omi libari è pari di dignità è di diritti. Pussedinu a raghjoni è a cuscenza è li tocca ad agiscia trà elli di modu fraternu.

Francês:

Tous les êtres humains naissent libres et égaux en dignité et en droits. Ils sont doués de raison et de conscience et doivent agir les uns envers les autres dans un esprit de fraternité.

Friulano:

Ducj i oms a nassin libars e compagns come dignitât e derits. A an sintiment e cussience e bisugne che si tratin un culaltri come fradis.

Galego:

Tódolos seres humanos nacen libres e iguais en dignidade e dereitos e, dotados como están de razón e conciencia, débense comportar fraternalmente uns cos outros.

Italiano:

Tutti gli esseri umani nascono liberi ed eguali in dignità e diritti. Essi sono dotati di ragione e di coscienza e devono agire gli uni verso gli altri in spirito di fratellanza.

Leonês:

Tolos seres humanos nacen llibres y iguales en dinidá y dreitos y, dotaos comu tán de razon y conciencia, débense comportare los unos colos outros dientru d’un espíritu de fraternidá.

Occitano:

Totes los èssers umans naisson liures e egals en dignitat e en dreches. Són dotats de rason e de consciéncia e se devon comportar los unes amb los autres dins un esperit de fraternitat.

Picardo:

Tos lès-omes vinèt å monde lîbes èt égåls po çou qu’èst d’ leû dignité èt d’ leûs dreûts. Leû re°zon èt leû consyince elzî fe°t on d’vwér di s’kidûre inte di zèle come dès frès.

Português:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

Provençal:

Tóuti lis uman naisson libre. Soun egau pèr la digneta e li dre. An tóuti uno resoun e uno counsciènci. Se dèvon teni freirenau lis un ‘mé lis autre.

Romanche:

Tuots umans naschan libers ed eguals in dignità e drets. Els sun dotats cun intellet e conscienza e dessan agir tanter per in uin spiert da fraternità.

Romeno:

Toate fiinţele umane se nasc libere şi egale în demnitate şi în drepturi. Ei sînt înzestrate cu raţiune şi conştiinţă şi trebuie să se comporte unele faţă de altele în spirit de fraternitate.

Sardo:

Totu sos èsseres umanos naschint lìberos e eguales in dinnidade e in deretos. Issos tenent sa resone e sa cussèntzia e depent operare s’unu cun s’àteru cun ispìritu de fraternidade.

Valão:

Tos lès-omes vinèt-st-å monde lîbes, èt so-l’minme pîd po çou qu’ènn’èst d’leu dignité èt d’leus dreûts. I n’sont nin foû rêzon èt-z-ont-i leû consyince po zèls, çou qu’èlzès deût miner a s’kidûre onk’ po l’ôte tot come dès frés.

Retirado de http://www.geocities.com/linguaeimperii/Hispanic/hispanic_es.html temos então a distribuição linguística na Ibéria.

Mapa de Hispania (hacia 250 a.C.)

Celta Galaico
C1   Galaci Lucenses
C2a Gigurri
C2b Galaici Bracarenses
C3   Cantabri

Celta Central
C4   Astures
C5   Vaccei
C6   Turmogi
C7   Autrigoni et Caristi
C8   Barduli
C9   Berones

Celtíbero
C10  Pelendones
C11  Lusones
C12  Titi
C13  Beli
C14  Turboletae
C15  Arevaci

Otros dialectos celtas
C16  Carpetani
C17  Vettones
C18  Celtici Baetici
C19  Celtici

C20 Turdetani (ant. Cinetes)
C21 Galli

Ibérico Septentrional
I1   Ceretani
I2    Ilergetes et Suessetani
I3    Lacetani
I4    Austani et Indigetes
I5    Lacetani et Cessetani
I6    Ilercavones
I7    Sedetani
I8    Edetani

Ibérico Meridional
I9  Consetani
I10 Oretani
I11 Bastetani / Mastieni
I12 Turduli / Turdetani

Lenguas de Colonización
P1 Fenicio-Púnico
G1 Griego Jónico

Otras Lenguas
B1 Proto-bereber


Cronología

1550 a.C.

Cultural del El Argar: en el sudoeste de la penínusla Ibérica

c. 1000 a.C.

Fundación de la colonia Agadir (Gades > Cádiz) por los fenicios

c. 950 a.C.

Penetración en la península de gentes de la Cultura de los Campos de Urnas

814 a.C.

Fundación de Carthago, en el N. de África, por los fenicios de Tiro

654 a.C.

Fundación de la colonia de Iboshim (Eubusus > Ibiza): comercio con el valle del Ebro

580 a.C.

Fundación de la colonia de Emporion por los griegos focenses

c. 450 a.C.

Se inicia una fuerte activdad por parte de Carthago en el sur de la península

480 a.C.

Mercenarios de la península ibérica (iberos, celtíberos, celtas) participan en batalla de Hímera

450 a.C.

Inicios de la epigrafía ibérica

450 a.C.

Comienzo de la Iberización del valle medio del Ebro

237 a.C.

Amílcar Barca desembarca en Agadir para iniciar la conquista de la península Ibérica

228 a.C.

Asdrúbal, yerno de Amílcar se casa con una princesa íbera y funda Qart Hadašt (Cartagena)

221 a.C.

Victorias de Aníbal sobre los pueblos celtas del centro Iberia (Carpetanos)

219 a.C.

Aníbal conquista la ciudad ibérica de Arse (Saguntum)

218 a.C. – 201 a.C.

Segunda Guerra Púnica: con la participación de mercenarios hispánicos

217 a.C.

Los romanos desembarcan en Hispania, y someterán algunos territorios

209 a.C.

Los caudillos ilergetes Indíbil y Mardonio se rebelan contra la ocupación romana

206 a.C.

Los romanos expulsan al ejército cartaginés de Hispania

195 a.C.

Campaña del cónsul Catón contra los celtíberos

182 a.C. – 
179 a.C.

Primera guerra celtíbera: se documenta el mayor ejército celtíbero conocido 35000 hombres

155 a.C. -138 a.C.

Guerras contra los lusitanos: A partir del 147 a.C. acaudillados por Viriato

153 a.C. – 133 a.C.

Segunda guerra celtíbera: Sometimiento de la ciudad arévaca de Numancia

104 a.C.

Cimbrios y teutones invaden Hispania pero son derrotados por los celtíberos

78 a.C.-72 a.C.

Guerras Sertorianas

29 a.C. – 19 a.C.

Guerras Cántabras


Novo estudo, confirma as hipóteses mais arriscadas sobre a existência duma verdadeira unidade cultural na Europa Atlântica, desde o megalítismo, passando pelo período Celta até os nossos dias.
Revista Portugaliza.- Neste segundo número da Revista Digital Portugaliza, que corresponde ao segundo semestre de 2005, X. M. Paredes, apresenta-nos as traduções do inglês de dois artigos jornalísticos de interesse (e actualidade) publicados recentemente nos jornais britânicos The Herald e The Scotsman, que deitam luz sobre as velhas teorias sobre o celtismo e cultura atlântica europeia, nomeadamente sobre os vínculos entre a Galiza, Norte de Portugal, e os chamados «Países Celtas».
[+…]
O estudo, dirigido pelo professor Daniel Bradley do Trinity College Dublin, e publicado no «American Journal of Human Genetics», revela uma «estreita ligação das origens dos Celtas com as gentes da Galiza». A investigação apresentada pelo Doutor Bradley, confirma as hipóteses duma migração maciça em 3000 ou 6000 anos, desde o que hoje é a Galiza e parte de Portugal cara a Irlanda e Escócia. Descobrimento que viria a confirmar as teorias sobre a origem Galaica dos chamados povos Celtas.·
Toda esta informação ampliada (assim como o estudo completo) está disponível desde já on-line na Revista Portugaliza: www.agal-gz.org/portugaliza

Galaico-português

Galaico-português é uma maneira já ultrapassada para designar uma língua extinta de que o português e o galego descendem, em geral conhecido como galego medieval pelos galegos, e como galaico-português pelos portugueses, mas, cada vez mais, como ‘galego-português’ por especialistas de todas as nacionalidades.

A língua considera-se formada no século XII, principalmente como desenvolvimento do latim vulgar falado pelos conquistadores romanos a partir do século II d.C.

No seu momento foi língua culta fora dos reinos da Galiza e de Portugal nos reinos vizinhos de Leão e Castela. Por exemplo, o rei castelhano Afonso X o Sábio, escreveu as suas Cantigas de Santa Maria em galego-português. A sua importância foi tal que se considera a segunda literatura durante a Idade Média só depois do Occitano.

O documento da lírica galego-portuguesa mais antigo parece ser a cantiga satírica "Ora faz ost’o senhor de Navarra" de Johan Soares de Pavha, datado por alguns de 1196.
As recompilações líricas medievais galego-portuguesas mais importantes são:

  • Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancuti)
  • Cancioneiro da Vaticana
  • Cancioneiro da Ajuda (anteriormente conhecido como Cancioneiro do Colégio dos Nobres).
  • Cantigas de Santa Maria, de Afonso X de Castela
Documentos mais antigos em Galaico-Português

Recentemente foi achado o documento mais antigo escrito na Galiza, o qual data do ano 1228, trata-se do Foro do bõ burgo de Castro Caldelas outorgado por Afonso IX em Abril do dito ano ao município de Alhariz (Galiza, Espanha).

O mais antigo documento Latino-Português, encontrado em Portugal, é chamado de Doação à Igreja de Sozello, encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, é datado do ano de 870 d.C.

A Notícia de fiadores (1175) é o documento Português mais antigo conhecido, com data.

Recentemente descoberto, o Pacto dos irmãos Pais reivindica o título de texto mais antigo encontrado em Portugal, no entanto é apenas datável por conjectura, é provavelmente anterior a 1173.

Outro documento, a Notícia de Torto, sem data, acredita-se que tenha sido escrito entre 1211 e 1216. O Testamento de Afonso II, é datado de 1214.
O galego-português, comum à Galiza e a Portugal, teve 700 anos de existência oficial e plena, mas as derrotas que os nobres galegos sofreram ao tomar partido pelos bandos perdedores nas guerras pelo poder em finais do séc. XIV e princípios do séc. XV provocam a assimilação da nobreza galega e a dominação castelhana, levando à opressão e ao desaparecimento público, oficial, literário e religioso do galego até finais do séc. XIX. São os chamados "Séculos Escuros". O português, por seu lado, durante este período gozou de protecção e desenvolvimento livre, graças ao facto de Portugal ter sido o único território peninsular que ficou fora do domínio linguístico do castelhano. Desta forma se separaram as duas línguas ou dialectos irmãos.

Galego x Português da Galiza

O idioma galego pode ser grafado à maneira portuguesa (usando dígrafos como lh e nh) ou à maneira espanhola (grafando os mesmos dígrafos como ll e ñ). O idioma galego propriamente dito, ou "galego isolacionista", "galego concórdia" ou "galego RAG" é grafado à maneira espanhola. Quando se escreve essas palavras à maneira portuguesa, costuma-se chamar de "galego reintegrado" ou "português da Galiza". A forma oral do galego é muito semelhante aos dialectos portugueses falados no norte de Portugal.

Tradição oral na cultura galego-portuguesa

O património cultural imaterial galego-português está presente nas tradições orais populares e é hoje um património em perigo de extinção, o que levou à sua candidatura conjunta pelos governos de Portugal e de Espanha à "Masterpiece of Oral and Intangible Heritage of Humanity" em 2005.

O folclore galego-português é muito rico em tradições orais; estas incluem as “cantigas ao desafio” ou “regueifas”, mitos e lendas, cantigas, ditados e lengalengas, além dos falares que retêm uma grande semelhança ao nível morfológico e sintáctico, no léxico e na fonética. A tradição oral está ligada a diversas actividades tradicionais que se transmitem oralmente como as celebrações das festas populares tais como o entrudo, o magusto, as festas da coca, o são João, as festas marítimas, romarias, música e danças populares. Nos ofícios, como as actividades piscatórias, a agricultura e o artesanato, além de serem actividades que são transmitidas de geração em geração de forma verbal, cada actividade usa de um vocabulário específico. Também nos costumes, nos falares, nos bailes, nos rituais, na medicina tradicional e na farmacêutica popular, nas artes culinárias, nas superstições e crendices, existe todo um conhecimento que é transmitido oralmente.

Controvérsia

Galego-português é um termo envolvido numa controvérsia entre os círculos académicos reintegracionistas galegos e os não reintegracionistas – denominados isolacionistas. Os integracionistas usam os termos galegoportuguês, galego-português, ou ainda galaico-português para designar a língua românica que, segundo eles, na Península Ibérica recebe os nomes de galego ou português. Para os integracionistas, posto que do galego medieval nasceram os actuais galegos e português, o nome mais correcto desde o ponto de vista histórico é galego, posto que os habitantes do norte de Portugal às vezes são também conhecidos por galegos. Os galegos da Galiza e os galegos do Norte de Portugal faziam a província romana da Galécia ou Gallæcia (posteriormente Reino da Galiza) e ainda hoje depois da separação de Portugal e Galiza os galegos e galaico-portugueses formam juntos uma mesma identidade cultural que é candidata a ser reconhecida património da humanidade pela UNESCO. Contudo, para os integracionistas os dois idiomas nunca se separaram de fato, e devem voltar a ser tratados como um único idioma.

Mais raramente, o termo é também usado para designar um facto, objecto ou sujeito comum à Galiza e a Portugal, ou para designar algo relativo ou pertencente ao período em que a Galiza e Portugal formavam uma única unidade política no reino Suevo da Galécia antes de ser divido pelos visigodos nos condados de Gallizia e Portugallia.

O mais antigo documento escrito em português.

Continua ……

As origens da língua Portuguesa…(2)

Língua portuguesa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Português

Falado em:

Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor Leste, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e em outros 18 países.

Total de falantes: 230 milhões (aprox.)

Posição: 6ª como língua nativa ou segunda língua; 5ª como língua nativa [1]


Português

Estatuto oficial

Língua oficial de:  Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Macau, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste.

A língua portuguesa, com mais de 210 milhões de falantes nativos, é a quinta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada no mundo ocidental. Idioma oficial único do Brasil, e idioma oficial, conjunto com outros idiomas, de Portugal (cuja segunda língua oficial é o mirandês), Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, é falada na antiga Índia Portuguesa (Goa, Damão, Diu e Dadrá e Nagar-Aveli), além de ter também estatuto oficial na União Europeia, no Mercosul e na União Africana.

A situação da Galiza e do galego em relação ao português é controversa. De um ponto de vista político e, portanto, oficial, o Galego é uma língua porque assim o determinam os organismos de estado Espanhol e da Região Autónoma da Galiza, com legitimidade democrática. De um ponto de vista científico, a ideia de que o galego é uma variante dialectal da língua portuguesa reúne hoje um vasto consenso, sendo estudado a par com as restantes variantes do português nas universidades e centros de investigação linguística. Ver o artigo Língua galega).

A língua portuguesa é uma língua românica (do grupo ibero-românico), tal como o castelhano, catalão, italiano, francês, romeno e outros.

Assim como os outros idiomas, o português sofreu uma evolução histórica, sendo influenciado por vários idiomas e dialetos, até chegar ao estágio conhecido actualmente. Deve-se considerar, porém, que o português de hoje compreende vários dialectos e subdialectos, falares e subfalares, muitas vezes bastante distintos, além de dois padrões reconhecidos internacionalmente (português brasileiro e português europeu). No momento actual, o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cem milhões de pessoas com duas ortografias oficiais (note-se que línguas como o inglês têm diferenças de ortografia pontuais mas não ortografias oficiais divergentes), situação a que o Acordo Ortográfico de 1990 pretende pôr cobro.

Segundo um levantamento feito pela Academia Brasileira de Letras, a língua portuguesa tem, atualmente, cerca de 356 mil unidades lexicais. Essas unidades estão dicionarizadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa .

O português é conhecido como A língua de Camões (por causa de Luís de Camões, autor de Os Lusíadas), A última flor do Lácio, expressão usada no soneto Língua Portuguesa de Olavo Bilac ou ainda A doce língua por Miguel de Cervantes.

Nos séculos XV e XVI, à medida que Portugal criava o primeiro império colonial e comercial europeu, a língua portuguesa se espalhou pelo mundo, estendendo-se desde a costa Africana até Macau, na China, ao Japão e ao Brasil, nas Américas. Como resultado dessa expansão, o português é agora língua oficial de oito países independentes, e é largamente falado ou estudado como segunda língua noutros. Há, ainda, cerca de vinte línguas crioulas de base portuguesa. É uma importante língua minoritária em Andorra, Luxemburgo, Namíbia, Suíça e África do Sul. Encontram-se, também, numerosas comunidades de emigrantes, em várias cidades em todo o mundo, onde se fala o português como Paris na França; Toronto, Hamilton, Montreal e Gatineau no Canadá; Boston, New Jersey e Miami nos EUA e Nagoya e Hamamatsu no Japão.

Índice

História

Ver artigo principal: História da Língua Portuguesa.

 Luís de Camões

O português desenvolveu-se, na parte ocidental da Península Ibérica, do latim falado, trazido pelos soldados e colonos romanos desde o século III a.C.. A língua iniciou o seu processo de diferenciação das outras línguas românicas depois da queda do Império Romano e das invasões bárbaras no século V. Começou a ser usada em documentos escritos pelo século IX, e no século XV tornara-se numa língua amadurecida, com uma literatura bastante rica.

Chegando à Península Ibérica em 218 a.C., os romanos trouxeram com eles a língua romana popular, o latim vulgar, de que todas as línguas românicas (também conhecidas como "Línguas novilatinas", ou, ainda, "neolatinas") descendem. Já no século II a.C. o sul da Lusitânia estava romanizado. Estrabão, um geógrafo da Grécia antiga, comenta num dos livros da sua obra Geographia: "Eles adoptaram os costumes romanos, e já não se lembram da própria língua." A língua tornou-se popular com a chegada dos soldados, colonos e mercadores romanos, que construíram cidades romanas normalmente perto de antigos povoados de outras civilizações.

Entre 409 d.C. e 711, assim que o Império Romano entrou em colapso, a Península Ibérica foi invadida por povos de origem germânica, conhecidos pelos romanos como bárbaros. Os bárbaros (principalmente os suevos e os visigodos) absorveram em grande escala a cultura e a língua da península; contudo, desde que as escolas e a administração romana fecharam, a Europa entrou na Idade Média e as comunidades ficaram isoladas, o latim popular começou a evoluir de forma diferenciada e a uniformidade da península rompeu-se, levando à formação de um "Romance Lusitano". Desde 711, com a invasão islâmica da península, o árabe tornou-se a língua de administração das áreas conquistadas. Contudo, a população continuou a usar as suas falas românicas de tal forma que, quando os mouros foram expulsos, a influência que exerceram na língua foi relativamente pequena. O seu efeito principal foi no léxico, com a introdução de milhares de palavras.

Os registos mais antigos que sobreviveram de uma língua portuguesa distinta são documentos administrativos do século IX, ainda entremeados com muitas frases em latim. Hoje em dia, essa fase é conhecida como o "Proto-Português" (falado no período entre o séculos IX e XII).

Trecho de poesia
medieval portuguesa

Das que vejo

non desejo

outra senhor se vós non,

e desejo

tan sobejo,

mataria um leon,

senhor do meu coraçon:

fin roseta,

bela sobre toda fror,

fin roseta,

non me meta

en tal coita voss’amor!

João de Lobeira
(1270?–1330?)

Portugal tornou-se independente em 1143 com o rei D. Afonso Henriques. No primeiro período do "Português Arcaico" – Período Galego-Português (do século XII ao século XIV), a língua começou a ser usada de forma mais generalizada, depois de ter ganhado popularidade na Península Ibérica cristianizada como uma língua de poesia. Em 1290, o rei Dom Dinis cria a primeira universidade portuguesa em Lisboa (o Estudo Geral) e decretou que o português, até então apenas conhecido como "língua vulgar" passasse a ser conhecido como Língua Portuguesa e oficialmente usado.

No segundo período do Português Arcaico, entre os séculos XIV e XVI, com as descobertas portuguesas, a língua portuguesa espalhou-se por muitas regiões da Ásia, África e Américas. Hoje, a maioria dos falantes do português encontram-se no Brasil, na América do Sul. No século XVI, torna-se a língua franca da Ásia e África, usado não só pela administração colonial e pelos mercadores, mas também para comunicação entre os responsáveis locais e europeus de todas as nacionalidades. A irradiação da língua foi ajudada por casamentos mistos entre portugueses e as populações locais e a sua associação com os esforços missionários católicos levou a que fosse chamada Cristão em muitos sítios da Ásia. O Dicionário Japonês-Português de 1603 foi um produto da actividade missionária jesuíta no Japão. A língua continuou a gozar de popularidade no sudoeste asiático até ao século XIX.

Algumas comunidades cristãs falantes de português na Índia, Sri Lanka, Malásia e Indonésia preservaram a sua língua mesmo depois de terem ficado isoladas de Portugal. A língua modificou-se bastante nessas comunidades e, em muitas, nasceram crioulos de base portuguesa, alguns dos quais ainda persistem, após séculos de isolamento. Encontra-se também um número bastante considerável de palavras de origem portuguesa no tétum. Palavras de origem portuguesa entraram no léxico de várias outras línguas, como o japonês, o suaíli, o indonésio e o malaio.

O fim do "Português Arcaico" é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende em 1516. O período do "Português Moderno" (do século XVI até ao presente) teve um aumento do número de palavras originárias do latim clássico e do grego, emprestadas ao português durante a Renascença, aumentando a complexidade da língua.

Em Março de 2006, fundou-se em São Paulo o Museu da Língua Portuguesa.

A língua portuguesa é, em alguns aspectos, parecida com a língua castelhana, tal como com a língua catalã ou a língua italiana, mas é muito diferente na sintaxe, na fonologia e no léxico. Um falante de uma das línguas requer alguma prática para entender capazmente um falante da outra. Além do mais, as diferenças no vocabulário podem dificultar o entendimento. Compare por exemplo:

Ela fecha sempre a janela antes de jantar. (português)

Ella cierra siempre la ventana antes de cenar. (castelhano)

Em alguns lugares, o português e o castelhano são falados em conjunto. Enquanto que os falantes de português têm um nível notável de compreensão do castelhano, os falantes castelhanos têm, em geral, maior dificuldade de entendimento. Isto ocorre porque o português tem a maior parte dos sons do castelhano, mas possui alguns que são únicos. No português, por exemplo, há sons anasalados e, no dialecto de Portugal, o final das palavras não é pronunciado por completo. Essas peculiaridades dificultam a compreensão dos falantes castelhanos. O português é, naturalmente, relacionado com o catalão, o italiano e todas as outras línguas latinas. Falantes de outras línguas latinas podem achar peculiar a conjugação de verbos aparentemente infinitivos.

Há muitas línguas de contacto derivadas do ou influenciadas pelo português, como por exemplo o Patuá macaense de Macau. No Brasil, destacam-se o Lanc-Patuá derivado do francês e vários quilombolas, como o cupópia do Quilombo do Cafundó, de Salto do Pirapora, SP[2]

Distribuição geográfica

Ver artigo principal: Geografia da língua portuguesa.

O português é primeira língua em Angola, Brasil, Portugal, São Tomé e Príncipe. E é a língua mais usada em Moçambique.

A língua portuguesa é também a língua oficial de Cabo Verde e uma das línguas oficiais de Timor-Leste (com o tétum) e Macau (com o chinês). É bastante falado, mas não oficial, em Andorra, Luxemburgo, Namíbia e Paraguai. Crioulos de base portuguesa são a língua materna da população de Cabo Verde e de parte substancial dos guineenses e são-tomenses.

O português é falado por cerca de 187 milhões de pessoas na América do Sul, 16 milhões de africanos, 12 milhões de europeus, dois milhões na América do Norte e 330 mil na Ásia.

A CPLP ou Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é uma organização internacional constituída pelos oito países independentes que têm o português como língua oficial. O português é também uma língua oficial da União Europeia, Mercosul e uma das línguas oficiais e de trabalho da União Africana. A língua portuguesa tem ganho popularidade como língua de estudo na África, América do Sul e Ásia.

Padrões

O português tem duas variedades escritas (padrões ou standards) reconhecidas internacionalmente:

Empregado por cerca de 85% dos falantes do português, o padrão brasileiro é hoje o mais falado, escrito, lido e estudado do mundo. É, ademais, amplamente estudado nos países da América do Sul, devido à grande importância económica do Brasil no Mercosul.

As diferenças entre as variedades do português da Europa e do Brasil estão no vocabulário, na pronúncia e na sintaxe, especialmente nas variedades vernáculas, enquanto nos textos formais essas diferenças diminuem bastante. As diferenças não são maiores que entre o inglês dos Estados Unidos e do Reino Unido ou o francês da França e de Québec. Ambas as variedades são, sem dúvida, dialectos da mesma língua e os falantes de ambas as variedades podem entender-se apenas com pequenas dificuldades pontuais.

Essas diferenças entre as variantes são comuns a todas as línguas naturais, ocorrendo em maior ou menor grau, dependendo dos casos. Com um oceano entre Brasil e Portugal, e ao longo de quinhentos anos, a língua evoluiu de maneira diferente em ambos os países, dando origem aos dois padrões de linguagem simplesmente diferentes, não existindo um padrão que seja mais correcto em relação ao outro.

É importante salientar que dentro daquilo a que se convencionou chamar "português do Brasil" e "português europeu", há um grande número de variações regionais.

Um dos traços mais importantes do português brasileiro é o seu conservadorismo em relação à variante europeia, sobretudo no aspecto fonético. Um português do Século XVI mais facilmente reconheceria a fala de um brasileiro do Século XX como sua do que a fala de um português. O exemplo mais forte disto é o vocalismo atóno usado no Brasil, que corresponde ao do português da época dos descobrimentos. Este fato destrói todo um discurso muito comum no Brasil que procura minorar a herança portuguesa, valorizando apenas as influências africanas e italianas. Destrói também todo um discurso muito comum em Portugal que tenta fazer dos portugueses falantes com mais direitos e autoridade do que os brasileiros. Assim, a linguística não só retira qualquer autoridade de qualquer variante em relação às outras, como mostra que a distância entre as variantes e entre os seus falantes não é tão grande como muitos pensam.

O que mais afasta as duas variantes não é o seu léxico ou pronúncia distintos (considerados naturais até num mesmo país), mas antes o facto, pouco comum nas línguas, de seguirem duas ortografias diferentes. Por exemplo, o Brasil eliminou os primeiros "c" (quando "cc", "cç" ou "ct") e "p" (quando "pc", "pç" ou "pt") sempre que não são pronunciados na forma culta da língua, um remanescente do passado latino da língua que persiste em muitas palavras no português europeu, dada a pronúncia diferente. Por seu lado, Portugal aboliu unilateralmente o trema em palavras como frequente, enquanto no Brasil esse sinal continua indicando quando o "u" deve ser lido. Durante muitos anos os dois países estiveram de costas voltados, legislando sobre a língua sem darem atenção um ao outro, nem aos restantes países lusófonos.

Também, existem diferenças em acentos, devido a:

  1. Pronúncia diferente. O Brasil em palavras como "Antônio" ou "anônimo" usa vogais fechadas, enquanto Portugal e África usam abertas, "António" ou "anónimo", respectivamente.
  2. Facilitar a leitura. Porque "qu" pode ser lido de duas diferentes forma em português: "ku" ou "k", o Brasil decidiu facilitar, usando o trema. Em vez de "cinquenta" como é escrito em Portugal e África, no Brasil se escreve "cinqüenta". Entretanto, recentemente, o uso do trema tem se reduzido no Brasil

A Reforma Ortográfica de 1990

Ver artigo principal: Acordo ortográfico de 1990.

O Acordo Ortográfico de 1990 foi proposto para criar uma norma ortográfica única, ratificada pelo Brasil, Cabo Verde e Portugal, de que participaram na altura todos os países de língua oficial portuguesa e com a adesão da delegação de observadores da Galiza. Timor-Leste, não sendo um subscritor do acordo original, ratificou-o em 2004.

Desde o Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico, assinado em São Tomé, a 25 de Julho de 2004, aguarda-se que mais um Estado membro da CPLP (depois do Brasil e Cabo Verde) o ratifique para que o acordo entre em vigor.

O acordo irá eliminar a maioria dos "c" quando "cc", "cç" ou "ct"; e "p" (quando "pc", "pç" ou "pt") do Português Europeu, o trema e acentos em palavras terminadas em "eia" no Brasil e irá adicionar pequenas novas regras.

Um outro acordo foi feito para as novas palavras que entrarão na língua.

Dialetos

A língua portuguesa tem grande variedade de dialectos, muitos deles com uma acentuada diferença lexical em relação ao português padrão, especialmente no Brasil. Tais diferenças, entretanto, não prejudicam muito a inteligibilidade entre os locutores de diferentes dialectos.

O português europeu modificou-se mais do que as outras variedades. Mesmo assim, todos os aspectos e sons de todos os dialectos de Portugal podem ser encontrados nalgum dialecto no Brasil. O português africano, em especial o português santomense, tem muitas semelhanças com o português do Brasil. Ao mesmo tempo, os dialectos do sul de Portugal (chamados "meridionais") apresentam muitas semelhanças com o falar brasileiro, especialmente, o uso intensivo do gerúndio (e. g. falando, escrevendo, etc.) Na Europa, o dialecto "transmontano-alto-minhoto" apresenta muitas semelhanças com o galego. Um dialecto já quase desaparecido é o português oliventino ou português alentejano oliventino, falado em Olivença e em Táliga.

Após a independência das antigas colónias africanas, o português padrão de Portugal tem sido o preferido pelos países africanos de língua portuguesa. Logo, o português tem apenas dois dialectos de aprendizagem, o europeu e o brasileiro. Note-se que, na língua portuguesa, há um dialecto preferido em Portugal e que deu origem à norma-padão: o de Lisboa (também chamado de Coimbra por ser falado na Universidade de Coimbra, mas que, no entanto, não é falado no resto dessa região). No Brasil, o dialecto preferido é o falado pelos habitantes cultos das grandes cidades (principalmente São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Brasília, os maiores centros difusores da língua e da cultura do país). Todos os dialectos, contudo, são mutuamente inteligíveis sem nenhuma dificuldade e nenhum pode ser considerado melhor ou mais correcto do que os outros.

Dialectos de Portugal

  • 1. Dialectos portugueses insulares açorianos. Ouvir registo sonoro recolhido em Ponta Garça (São Miguel).
  • 8. Dialectos portugueses insulares madeirenses. Ouvir registo sonoro recolhido em Câmara de Lobos.
  • 4. e 10. Dialectos portugueses setentrionais: dialectos transmontanos e alto-minhotos. Ouvir registo sonoro recolhido em Castro Laboreiro (Minho).
  • 9. 6. 5. Dialectos portugueses setentrionais: dialectos baixo-minhotos-durienses-beirões. Ouvir registo sonoro recolhido em Granjal (Viseu).
  • 7. Dialectos portugueses centro-meridionais: dialectos do centro litoral. Inclui Coimbra. Ouvir registo sonoro recolhido em Moita do Martinho (Leiria).
  • 2. e 3. Dialectos portugueses centro-meridionais: dialectos do centro interior e do sul. Inclui Lisboa. Ouvir registo sonoro recolhido em Serpa (Beja, Alentejo).

 

Regiões subdialetais com características peculiares bem diferenciadas:

· Dialectos portugueses setentrionais

o Região subdialectal do Baixo-Minho e Douro Litoral. Inclui o Porto. Ouvir registo sonoro recolhido em Vila Praia de Âncora (Viana do Castelo).

· Dialectos portugueses centro-meridionais

o Região subdialectal da Beira Baixa e Alto Alentejo: zona centro-meridional. Ouvir registo sonoro recolhido em Castelo de Vide (Portalegre, Alentejo).

o Região subdialectal do Barlavento do Algarve. Ouvir registo sonoro recolhido em Porches (Algarve).

Um mapa mais preciso da classificação Lindley Cintra pode ser encontrado nesta página do Instituto Camões.

Dialetos do Brasil

Há pouca precisão na divisão dialetal brasileira. Alguns dialectos, como o dialeto caipira, já foram estudados, estabelecidos e reconhecidos por linguistas, tais como Amadeu Amaral. Contudo, há poucos estudos a respeito da maioria dos demais dialectos e, actualmente, aceita-se a classificação proposta pelo filólogo Antenor Nascentes e outros.

  1. Caipirainterior do estado de São Paulo, norte do Paraná, sul de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul
  2. Maranhense, Piauiense (Meio Nortista) – Maranhão e Piauí
  3. Baiano – região da Bahia
  4. Fluminense (ouvir) – Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo (a cidade do Rio de Janeiro tem um falar próprio)
  5. GaúchoRio Grande do Sul
  6. MineiroMinas Gerais
  7. Dialetos nordestinos – Conjunto de dialectos falados na Região Nordeste, com excepção da Bahia.
  8. Nortista – estados da bacia do Amazonas (ouvir) – (o interior e Manaus têm falares próprios)
  9. Paulistanocidade de São Paulo e proximidades
  10. Sertão – Estados de Goiás e Mato Grosso
  11. Sulista – Estados do Paraná e Santa Catarina. Este dialecto sofre inúmeras variações de pronúncia de acordo com a área geográfica, sendo influenciado pela pronúncia de São Paulo no norte do Paraná e do Rio Grande do Sul no oeste do Paraná e em algumas regiões de Santa Catarina.
Dialetos de Angola

 

  1. Benguelense – província de Benguela
  2. Luandense (ouvir) – província de Luanda
  3. Sulista – Sul de Angola

 

 
 
 
 
 
Outras áreas
  • Cabo-verdiano (ouvir) – Cabo Verde
  • Galego (ouvir) Galiza, Espanha (oficialmente considerada como língua independente)
  • Guineense (ouvir) – Guiné-Bissau
  • Macaense (ouvir) – Macau, China
  • Moçambicano (ouvir) – Moçambique
  • Santomense (ouvir) – São Tomé e Príncipe
  • Timorense (ouvir) – Timor-Leste

Exemplos de palavras que são diferentes nos dialectos de língua portuguesa de três continentes diferentes: Angola (África), Portugal (Europa) e Brasil (América do Sul).

  • Angola: bazar, ir embora
  • Brasil: ir embora; (ou vazar entre adolescentes)
  • Portugal: ir embora; (ou bazar/vazar entre adolescentes)
  • Angola: machimbombo
  • Brasil: ônibus
  • Portugal: autocarro
  • Angola: muceque
  • Brasil: favela
  • Portugal: bairro de lata

Gramática

Os verbos são divididos em três conjugações, identificadas pela terminação dos infinitivos, "-ar", "-er", "-ir" (e "-or", remanescente no único verbo, "pôr", juntamente com seus compostos; este verbo pertence, todavia, à conjugação de infinitivos terminados em "-er", pois tem origem no latim "poner", evoluindo para "poer" e "pôr"). A maioria dos verbos terminam em "ar", tais como "cantar". De uma forma geral, os verbos com a mesma terminação seguem o mesmo padrão de conjugação. Porém, são abundantes os verbos irregulares e alguns chegam a ser até mesmo anómalos: ir, ser, saber, pôr e seus derivados apor, opor, compor, despor, supor, propor, decompor, recompor, repor, sobrepor e antepor.

Na Língua Portuguesa, os verbos são divididos em três modos, de acordo com o que exprimem:

  • Indicativo, para exprimir fatos tidos como certos;
  • Conjuntivo, para exprimir suposições;
  • Imperativo, para exprimir instruções.

Todos os substantivos portugueses apresentam dois géneros: masculino ou inclusivo e feminino ou exclusivo. Muitos adjectivos e pronomes, e todos os artigos, indicam o género dos substantivos a que eles se referem. O género feminino em adjectivos é formado de modo diferente dos substantivos. Muitos adjectivos terminados em consoante permanecem inalterados: "homem superior", "mulher superior", da mesma forma os adjectivos terminados em "e": "homem forte", "mulher forte". Fora isso, o substantivo e o adjectivo devem sempre estar em concordância: "homem alto", "mulher alta".

O grau dos substantivos é, de uma forma genérica, representado pelos sufixos "-ão, -ona" para o aumentativo e "-inho, -inha" para o diminutivo, ainda que haja numerosas variações para representar esses graus.

Os adjectivos podem ser empregados em forma comparativa ou superlativa. A forma comparativa é representada pelos advérbios "mais…que", "menos…que" e "tanto…quanto" (ou "como"), e a forma superlativa é representada pelas locuções "o mais" ou o "menos". Para representar o superlativo absoluto, pode-se ainda acrescentar os sufixos "-íssimo, -íssima" (alguns adjectivos, no entanto, fazem o superlativo absoluto com a terminação "-érrimo, -érrima", ou "-ílimo", "-ílima").

Os substantivos vêm geralmente acompanhados de um numeral, pronome ou artigo, assumindo variações de acordo com as funções sintácticas, a saber:

  • Nominativo (sujeito ou objecto directo): a, o, este, esta, isto, esse, essa, isso, aquele, aquela, aquilo;
  • Genitivo (adjunto adnominal de posse): da, do, deste, desta, disto, desse, dessa, disso, daquele, daquela, daquilo;
  • Locativo (adjunto adverbial de lugar): na, no, neste, nesta, nisto, nesse, nessa, nisso, naquele, naquela, naquilo;
  • Dativo (objecto indirecto): à, ao, àquele, àquela, àquilo (a preposição não se funde com os demais demonstrativos).

Os advérbios podem ser formados pelo feminino dos adjectivos, com o acréscimo do sufixo "-mente", por exemplo: certo = cert(a)mente.


Vocabulário

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, por Antônio Houaiss (19151999), filho de imigrantes libaneses e antigo Ministro da Cultura do Brasil, foi criado com o apoio de quase duas centenas de lexicografos de vários países e é o dicionário de língua portuguesa mais completo (cerca de 228 500 entradas, 376 500 acepções, 415 500 sinónimos, 26 400 antónimos e 57 000 palavras arcaicas). Inclui todas as variações da língua portuguesa: africanismos, asiacismos, brasileirismos e lusismos. Dedicando a sua vida à língua, Houaiss começou o seu trabalho em 1986, e morreu um ano antes do dicionário ser acabado pelos seus colegas, no ano 2000, sem ver o seu sonho tornar-se realidade. O dicionário está rapidamente a tornar-se uma referência na língua, sendo até classificado por alguns como um "monumento à língua".

O Português, quer em morfologia e síntaxe, representa uma transformação orgânica do latim sem intervenção de qualquer língua estrangeira. Os sons, formas gramaticais e tipos sintácticos, com pequenas excepções, são derivados do latim. E, cerca de 90% do vocabulário ainda deriva da língua de Roma. Algumas mudanças tomaram corpo durante o Império Romano, outras tiveram lugar mais tarde. Na Idade Média Alta, o Português estava a erodir tanto como o francês, mas uma política conservadora reaproximou a língua ao latim.

Fonética

A língua portuguesa contém alguns sons únicos para falantes de outras línguas tornando-se, por isso, necessário que estes lhes prestem especial atenção quando a aprendem.

Visto a língua portuguesa não conter uma ortografia do tipo "uma letra para cada som", como por exemplo o croata, uma letra pode ter mais do que um único som, como a letra "x" que apresenta cinco sons distintos.

Exemplos de Frases

Original

AFI (pronúncia de Lisboa)

AFI (pronúncia do Brasil)

Sustentava contra ele Vénus bela,

suʃtẽˈtavɐ ˈkõtɾɐ ˈelɨ ˈvɛnuʒ ˈbɛlɐ

sustẽtava ˈkõtɾa ˈeli ˈvenuz ˈbɛla

Afeiçoada à gente Lusitana,

ɐfɐi̯su̯ˈaða ˈʒẽtɨ luziˈtɐnɐ

afejswada a ˈʒẽt̯ʃ luziˈtɜ̃na

Por quantas qualidades via nela

puɾ ˈku̯ɐ̃tɐʃ ku̯ɐliˈðaðɨʒ ˈviɐ ˈnɛlɐ

pux ˈkwɜ̃tas kwaliˈdadʒis ˈvia ˈnɛla

Da antiga tão amada sua Romana;

dˈãtigɐ tɐ̃ũ ̯ ɐˈmaðɐ ˈsuɐ ʁuˈmɐnɐ

da ˈɜ̃tʃiga tɜ̃w̃ aˈmada ˈsua xoˈmɜ̃na

Nos fortes corações, na grande estrela,

nuʃ ˈfɔɾtɨʃ kuɾɐˈsõĩ ̯ʃ nɐ ˈgɾɐ̃dɨʃˈtɾelɐ

nus ˈfɔɾtʃis koɾaˈsõj̃s, na gɾɜ̃dʒi isˈtɾela

Que mostraram na terra Tingitana,

kɨ muʃˈtɾaɾɐ̃ũ ̯ nɐ ˈtɛʁɐ tĩʒiˈtɐnɐ

ki mɔsˈtɾaɾɜ̃w̃ na ˈtɛxa tʃĩʒiˈtɜ̃na

E na língua, na qual quando imagina,

i nɐ ˈlĩgu̯ɐ nɐ ku̯aɫ ˈku̯ɐ̃du̯imɐˈʒinɐ

i na ˈlĩgwa, na kwaw ˈkwɜ̃dwimaˈʒĩna

Com pouca corrupção crê que é a latina.

kõ ˈpokɐ koʁupˈsɐ̃ũ ̯ kɾe ki̯ɛ ɐ lɐˈtinɐ

kõ ˈpo:ka koxupˈsɜ̃w̃ kɾe kjɛ a laˈtʃina

Curiosidades

  • A maior palavra do português é "Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico", com 46 letras, que denota o estado de quem é vítima de uma enfermidade causada pela aspiração de cinzas vulcânicas.
  • A língua portuguesa é o único idioma românico em que existe mesóclise.
  • A palavra "saudade" é considerada de existência única no português, em relação ao seu significado. Contudo, esta ideia foi mistificada, devido a não existir uma palavra equivalente nas línguas estrangeiras mais conhecidas. No polaco, por exemplo, existe a palavra tęsknię, com a mesma definição. Com relação ao inglês usa-se o miss, por exemplo na frase I miss you, como: Sinto sua falta, relacionando falta a saudade, ou seja falta(en)=saudade(pt)

Notas

  1. English and Portuguese Numbers in the World, University of Helsinki e The 30 Most Spoken Languages of the World
  2. Em Cafundó, esforço para salvar identidade. São Paulo, SP: O Estado de São Paulo, 2006 Dezembro 24, p. A8.

Ver também

Dicionários on-line

Ferramentas de apoio à escrita do português

Ligações externas

Links de visita obrigatória

  1. http://www.instituto-camoes.pt/cvc/ensinar.html
  2. http://www.instituto-camoes.pt/cvc/hlp/geografia/mapa06.html
  3. http://www.instituto-camoes.pt/cvc/contomes/21/texto.html
  4. http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx
  5. http://antiga.bibvirt.futuro.usp.br/index.php
  6. http://antiga.bibvirt.futuro.usp.br/index.php
  7. http://www.estacaodaluz.org.br/wps/portal (Museu da língua Portuguesa)
  8. http://ciberduvidas.sapo.pt/

Uma língua de cultura como a nossa, portadora de longa história, que serve de matéria prima e é produto de diversas literaturas, instrumento de afirmação mundial de diversas sociedades, não se esgota na descrição do seu sistema linguístico: uma língua como esta vive na história, na sociedade e no mundo.
Tem uma existência que é motivada e condicionada pelos grandes movimentos humanos e, imediatamente, pela existência dos grupos que a falam.
Significa isto que o português falado em Portugal, no Brasil e em África pode continuar a ser sentido como uma única língua enquanto os povos dos vários países luso falantes sentirem necessidade de laços que os unam. A língua é, porventura, o mais poderoso desses laços.

Para ouvir a musica que acompanha este Post click ‘aqui’

Vivências(4)…Continuação … e no arregaçar das mangas…

O Cordel Alentejano… também existe?…
Mesmo antes de ir explorar a Poesia Alentejana não poderei deixar de anotar as decimas seguintes e a resposta, não há banda do agasalho, mas a um apontamento, que as referidas décimas citam, ‘Em delírios pipianos ‘ e que os leitores deste meu ‘post’ poderão seguir clicando no link indicado.
Décimas do bando do agasalho

Mesmo não tendo um tostão,
De amigos não abdico.
Ter amigos é ser rico,
Diz o povo e com razão.

Foi a Costa do Castelo,
Que vela a minha cidade,
Que tornou realidade,
Este encontro tão singelo,
Que aqui a todos revelo:
Veio um companheirão,
Empenhado até mais não.
Que apesar do mar revolto,
Diz e bem, Eu Vou Mas Volto,
Mesmo não tendo um tostão.

A Naundinha também veio.
Rotice Memorial
Do Convento
ancestral,
Um ou outro galanteio
Com caral…das pelo meio,
Também houve mexerico,
E conversas de penico
Em delírios pipianos.
Eu sou como a Ana Anes,
De amigos não abdico.

A golpes d’O Bisturi
Lá cortámos na casaca
De muita gente velhaca
Que conhecemos para aí.
Não ficámos por aqui.
Pico pico saranico,
Ninguém nos calava o bico.
E o palhaço agasalhado?
O nabo e o abichanado?
Ter amigos é ser rico.

Foi muito animado sim,
Com grande camaradagem.
Princípio duma viagem
Que espero não tenha fim.
E não falo só por mim…
Já é vosso o coração
Deste humilde Cidadão
Do Mundo
. Viva a Amizade.
Viva a Solidariedade.
Diz o povo e com razão.

João Fernando

In http://cidadaodomundo.weblog.com.pt/arquivo/027515.html

Em resposta aos ‘Em delírios pipianos’ acima indicados (aqui fica o link, não pelo interesse geral mas para entendimento da resposta).

Décimas de refutação
já num blogue o meu pipi?
de um pipi, que caso estranho…
eu vou ali e já venho:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.
é forçoso que eu desminta
com vigor essa atoarda:
por muito usar a espingarda
e por gastar muita tinta,
não se espere que consinta
na falsidade que li
e me ofende o pedigree:
garanto que não fui eu
o brejeiro que meteu
já num blogue o meu pipi.
quer-se o pipi bem guardado
para uso pessoal:
nestas coisas afinal
deve ser-se recatado.
demais, quem seja versado
nos tiques do meu engenho,
das prosódias que eu amanho
já saberia de cor
que eu faria bem melhor
de um pipi… que caso estranho!
nem da lira tiraria
maior glória do instrumento
quando ao pipi acrescento
a minha morfologia.
e decerto não cabia
num blogue assim o tamanho
do lenho ardendo no lanho.
pipilar pipis na liça
muito enguiça e pouco atiça…
eu vou ali e já venho…
o que é de césar, quem jogue
assim a césar o dê
e se entender o porquê
deixe então que eu desafogue:
que não pus pipi no blogue
nem pus blogue no pipi:
ri melhor quem no fim ri
por redondilha ou quinamos,
ou por música de orgasmo:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.
Vasco Graça Moura

in http://abrupto.blogspot.com/2003_06_01_abrupto_archive.html

Sem dúvida …estamos na presença de literatura de cordel….

O cante, Poesia e Poetas contemporâneos do Alentejo

O cante alentejano tem o sentido do amor, da saudade e da tristeza, embora associados também a outros motivos. Das 206 modas do Cancioneiro Alentejano, 114 falam do Amor. Por exemplo as modas “Lindo Amor”, “Ao romper da bela aurora” e “Ribeira vai cheia”, etc.

Das restantes 92, a maior parte canta a saudade. Por exemplo “O Meu Baleizão”, “As cobrinhas de água”, “Já morreu quem me lavava”, etc. 6 modas cantam a morte e 17 cantam a tristeza. Cantam a morte as modas “Lindo Amor”, “Solidão” e “Já morreu quem me lavava”. Cantam o sofrimento as modas “Anda cá senta-te aqui”, “Ó Maria Rita” e “Suspiros ais e tormentos”, etc.

Donde veio o cante alentejano – A hipótese mais significativa é a que nos aponta a vila de Serpa como terra onde se organizou o cante Alentejano, pelo seguinte. As escolas de polifonia clássica do século XV, em Évora foram frequentadas por alguns frades da Serra de Ossa. Alguns destes mesmos frades foram mandados para Serpa onde fundaram o convento dos paulistas e Escolas de Cante Popular. Deve ter sido dessas escolas que saiu o cantem alentejano. O cante alentejano tem princípio, meio e fim, pelo que somos levados a crer que os autores das modas alentejanas tenham pessoas dotadas de conhecimentos musicais suficientes para as inventar. Estas escolas de canto popular, fundadas pelos frades paulistas da Serra de Ossa, teriam a sua origem aí pelos fins do século XV, na transição do Milénio Vocal para o Renascimento.

Assim definido, o cante alentejano representa a cultura popular tradicional do povo do Alto e Baixo Alentejo, de um extraordinário, com a sua identidade própria, as suas características específicas e a sua peculiar interpretação. Esta cultura mergulha as suas raízes no sistema musical medievo, numa perfeita simbiose de modas e de tons, fruto da evolução da música no período renascentista. Esta cultura traduz a perfeita imagem do povo alentejano, no seu quotidiano, durante séculos, e que se mantêm viva, em toda a sua beleza sentimental e nostálgica, que embalou, a sua gente, a fez trabalhar, cantar, chorar, sofrer rezar e morrer, numa epopeia bem digna da pena de um novo ainda que rústico épico.

 A Vila Alentejana que deu o nome à Cuba do Galego “Fidel”

Cristóvão Colom – Salvador Fernandes Zarco, a quem El-Rei Dom João II incumbira de tão árdua e misteriosa missão: a alteração das coordenadas da partilha do mundo, pelo Tratado de Tordesilhas, nasceu na casa grande  em Cuba – Vila Alva, filho de D. Fernando – Duque de Viseu e de Beja e D. Isabel Gonçalves Zarco (Câmara).  

Pode ler um apontamento maior em :

http://webintercam.spaces.live.com/blog/cns!185B8A0F5289E719!1264.entry

Cantares de alguns Grupos Alentejanos

(Pode ouvir as canções clicando nos seus nomes)

Grupo RONDA DOS QUATRO CAMINHOS

Olha o Rouxinol com os Cantares de Évora

Grupo ADIAFA

"As Meninas da Ribeira do Sado"

"Ó Pavão"

Grupo CANTOS D’AURORA

"Dançando Pulirando"

Grupo CANTO MOÇO

"Não Chove No Alentejo"

"Chula Da Póvoa"

Grupo TRIGO LIMPO

"Então Porque Não"

"Eu Subi Ao Cerro"

Mais ‘Cante Alentejano

http://www.joraga.net/gruposcorais/pags/06tertuliaCANTOdoCANTE.htm

http://www.joraga.net/gruposcorais/tertuliaCCante/Planicie%20Alentejana1%20(Pedro-Luis).WAV

http://www.monsarazgrupocultural.com/musicas/monsarazvarandadoalqueva.mp3

Poesia e Poetas contemporâneos do Alentejo

«A palavra “romance”, que primitivamente significava a língua falada em Portugal até ao aparecimento do português proto-histórico, passou, depois, a designar história em verso, feita por autor desconhecido, e que o povo cantava nas suas actividades.
A hipótese de autoria colectiva, perfilhada por Garrett, está posta de parte. Só poderá falar-se de romances do povo, na medida em que ele os assimilou e modificou, acrescentando, suprimindo, adaptando e até interpolando, umas vezes consciente, outras inconscientemente.
(…)
Podemos considerar os romances poemas lendários com fundamento histórico, de forma épica ou épico-lirica, narrativa ou dramatizada.
Garrett admite duas espécies de histórias: o romance, que é todo narrativo, e a xácara, que é toda dramatizada. Mas muitas vezes coexistem o romance e a xácara. Então, chama-se romance-xácara, se predomina a fala do autor; e xácara-romance, se predomina a fala dos per­sonagens. Quando a história é triste, chama-se solau.
Entre nós, também se lhes chamou: rimances, romanças, trobos, trovas, motes ou simplesmente versos. Os romances religiosos de carácter laudatório também se chamam loas.
Os romances religiosos estão relacionados com a vida de Jesus, de Nossa Senhora e dos Santos. Os profanos evocam episódios da reconquista cristã aos Mouros, ou falam de amor e de dramas passionais, provocados pela infidelidade das esposas, na ausência dos maridos, e pelo perjúrio dos namorados, em vésperas de casamento.
A maior parte dos romances peninsulares teve o berço em Castela e nasceu dos Cantares da Gesta, na opinião de Carolina Michaelis. Daí irradiou para toda a Península, por via oral, através das migrações para guerras, trabalhos, feiras e festas. (…)»(*)

(*) Joaquim Alves Ferreira, in LITERATURA POPULAR

O CALOTEIRO

Senhor José, não me paga?
Que vergonha é a sua?
Desde que ferrou o cão,
Não passou mais nesta rua.
– É talvez por lhe dever
Ou por ter medo de si.
Quer que deixe de comer,
Pra pagar o que bebi?
– Trabalhe, seu mandrião,
Caloteiro de má raça:
Eu, quando compro a fazenda
Tenho de largar a massa.
Quer você, à minha custa,
Encher a pança de graça?
Não tem vergonha de ouvir
O que dizem quando passa?
Trabalhe, seu calaceiro,
Se quer ter algum valor:
Os calos são os anéis
Do homem trabalhador.
– Eu calos na mão não quero,
É canalha que arrenego;
Dispenso esses anéis
Que não dão nada no prego.
E é você que vem pregar
Moral, com esse jeitinho?
Foi você que me roubou,
Vendendo água por vinho.
Lembre-se, seu impostor,
Daquele velho rifão
Quem enganar um vendeiro
Tem cem anos de perdão

in ROMANCEIRO (I vol.) LITERATURA POPULAR

Entrevista ao Poeta da terra:

1 – Quem é o Poeta da terra?

Chamo-me Anastácio José de Deus, tenho 79 anos feitos a 10 de Fevereiro, e já estou reformado. Trabalhei 30 anos nas pedreiras em Pardais; era desbastador das pedras mármores e trabalhava com uma broca.

2 – O que é ser Poeta?

Poeta é um homem que sabe fazer poemas, cantigas ou décimas.

É preciso ter vocação e saber dizer o que lhe vai na alma.

3 – Com que idade começou a fazer poesia?

Comecei por volta dos 18 anos nos bailes.

4 – Frequentou a escola? Até que idade?

Frequentei a escola até à 3ª classe e fiz a 4ª já em adulto na tropa, na escola militar.

5 – A que dedica as suas poesias? Onde se inspira?

As minhas poesias falam sobre a política, sobre as pessoas, sobre a reinação, sobre o amor, festas, animais, sobre outras terras.

6– Gostava de ter um livro seu?

Gostava de ter um livro publicado e tenho um livro escrito por mim com todos os poemas que gosto de fazer.

7 – O que faz nos seus tempos livres?

Cuido da horta, cuido da esposa e limpo oliveiras.

8 – Que poema até hoje gostou mais de fazer? Porquê?

Gostei muito das décimas que dediquei á minha mula que teve durante 13 anos.

9 – É difícil escrever poesia? Quem o ensinou?

Para quem sabe não é difícil. Aprendi com todos que também sabiam dizer poesia.

10 – Onde costuma dizer os seus poemas e a quem?

Já participei em alguns encontros de Poetas, mesmo fora da região; quando era mais novo dizia os poemas entre os amigos na taberna, no trabalho e quando havia festas também dizia poesia a maioria décimas.

11- Onde se inspira para a sua poesia?

Na vida do dia-a-dia, no que acontece de importante, nas pessoas ou animais e quando estou descansado.

A foto acima é do poeta popular”Anastácio José de Deus”

Tradição dos Orvalhos (Aldeia do Concelho do Alandroal)

Em todo o Alentejo existem muitas pessoas que usam a poesia para se exprimir em muitas situações. Geralmente em grupos de amigos, à volta do petisco, acompanhado do bom copo de vinho que dá asas à inspiração. Por isso há mais homens do que mulheres a fazer poesia. A poesia popular alentejana deve ser divulgada e protegida. Umas das formas de poesia popular são as Décimas. As Décimas são versos ditos de cabeça e têm regras rígidas de rima:

– A primeira rima com o quarto e o quinto versos; o segundo com o terceiro; o sexto com o sétimo e o décimo; o oitavo com o nono.

 

POETAS POPULARES DO ALENTEJO

(Distrito de Évora)

AUGUSTO GARCIA TOUCINHO
Data de nascimento: 3 de Agosto de 1900
Fez poesia desde os 11 anos.

MOTE

O que nasce é para morrer
Seja qual for o vivente
Tudo tem princípio e fim
Nada vive eternamente.

Traz o destino marcado
O vivente quando nasce
Pois se nada cá findasse
Tudo vivia afrontado.
Estava o mundo amontoado
Até mais cá não poder caber
Nada se podia mover
E tudo vivia oprimido,
Está assim compreendido
“O que nasce é para morrer”.

Racionais e irracionais
E os vegetais reverdecendo
Tudo vai desaparecendo
Dando lugar a vir mais.
Estão então os minerais
No mesmo ser para sempre
É coisa que não se sente
Não se move nem se queixa,
O mais tudo o mundo deixa
“Seja qual for o vivente”

À morte não escapa nada
E a tudo mete medo
Todos mais tarde ou mais cedo
Fazem a mesma jornada.
Depois da vida acabada
Nada mais cá dá motim
A ordem do mundo é assim
E a morte não tem prudência,
Pelo destino da providencia
“Tudo tem princípio e fim”.

Depois de a vida acabar
Tudo se vai esvaindo
Mas novos seres vêm vindo
P´ró mundo não acabar.
Assim tem que continuar
Enquanto o mundo for existente
Sabe-se verdadeiramente
Que tudo morre de certeza,
Pela ordem da natureza
“Nada vive eternamente”.

MOTE

Temos os astros em guerra
Turvam-se as águas do mar
Quando é que reina na terra
A paz de que ouço falar.

Aonde é que isto irá parar
Com o decorrer dos tempos
Assim com tantos inventos
No que é que isto tudo irá dar.
Anda um conflito no ar
O que é que dali se espera
Cruzam a atmosfera
Os satélites e os foguetões,
Devido a tantas invenções
“Temos os astros em guerra”.

Estão os povos alarmados
Com o que se passa no mundo
Navios metidos no fundo
E marinheiros afogados.
Muitos barcos naufragados
Sem se poderem salvar
As pessoas que lá possam estar
Ali têm o seu fim,
Com estes sinistros assim
“Turvam-se as águas do mar”.

Não devia haver falsidade
Devia haver boa união
Quando é que os povos se entenderão
Como sendo uma irmandade?
Se houvesse só lealdade
Que muito bom que isso era
O povo pergunta e espera
Um futuro mais conveniente,
Sossego para toda a gente
“Quando é que reina na terra?”

Luta-se por todo o lado
Muitos querem o poleiro
Outros lutam pelo dinheiro
Está o mundo desgraçado.
O que é explorado
Também anda a lutar
Não se pode conformar
Com isso tal como está,
Pergunto eu quando virá
“A paz de que ouço falar”.

JOAQUINA MARIA DE JESUS GOMES

Natural: Santiago Maior
Residência: Alandroal
Data do nascimento: De uma Senhora não se diz
Faz poesia desde os 26 anos.

MOTE

O que tenho vai chegando
Para eu sobreviver
Mas também vivo ajudando
Quem não sabe agradecer.

Tanto que eu tenho trabalhado
Para juntar algum tostão
Eu não sou preguiçoso, não
Mas começo a ficar cansado
E um pouco desorientado
Algumas fomes vou matando
A quem por elas vai passando
Mas seja o que Deus quiser,
Pois para mim e para a minha mulher
“O que tenho vai chegando”.

Três filhas que eu tenho
A quem dedico muito amor
Mas também sinto a dor
Quando eu carrego o lenho.
Com razão e com empenho
De não as ver sofrer
Mas está-me a parecer
Que será triste o seu fim,
Então vou pensar em mim
“Para eu sobreviver”

Há-de ser o que Deus quiser
É só já o que me resta
Pois o mais nada presta
Digo eu para a minha mulher.
Faço sempre o que ela quer
E para se ir aguentando
Sempre e de vez em quando
Com tudo o que acontecer,
Eu cá estou para sofrer
“Mas também vivo ajudando”.

Tudo bate à minha porta
Qualquer uma criatura
Na minha casa há fartura
De tudo o que há na horta.
Mas a minha alma quase morta
Pouco já pode entender
Por tanto ver sofrer
Vivo desorientado,
Mas sempre tenho ajudado
“Quem não sabe agradecer”.

QUADRAS

Levantei-me um dia cedo
P´ró céu me pus a olhar
Verifiquei que tive medo
Do que estava a imaginar.

Quem morreu p´ra nos salvar
Não é nenhum segredo
E para observar
Levantei-me um dia cedo.

A minha imaginação
Era digna de contemplar
E com amor no coração
Pró céu me pus a olhar.

Era o juízo final
Debaixo de um arvoredo
O castigo de quem fez mal
Verifiquei que tive medo.

Eu vou tentar ser melhor
P´ra Deus não me castigar
Que me livre o Deus Senhor
Do que estava a imaginar.

QUADRAS

A vida contém beleza
E também sabedoria
Não dês largas à tristeza
P´ra viveres com alegria.

Tu nasceste p´ra viver
És fruto da natureza
Vive a vida com prazer
A vida contém beleza.

Como é belo saber viver
Ter o dom da poesia
De tudo um pouco aprender
E também sabedoria.

Olha!… Não chores, sorri
Tu também conténs pureza
Pensa um pouco em ti
Não dês largas à tristeza.

Mostra-me o teu sorriso
E a tua simpatia
È disso que eu preciso
P´ra viveres com alegria.

ANTÓNIO MANUEL MARCELINO
Alcunha: NECA
Natural: Monte das Herdades
Data do nascimento: 12 de Março de 1922
Fez poesia desde os 20 anos.

MOTE
O tempo vai-se passando
E a habilidade está perdida
Como um velho por ser, conheço
A história da minha vida.

Em mil nove dois e três
Fiz eu o primeiro anito
Sem saber fiz um palpito
Que era um homem português.
Foi isso que o destino fez
Que o destino tem o mando
Honradamente lutando
E enfrentando a canseira,
Mesmo que a gente assim não queira
“O tempo vai-se passando”

Toda a vida pobrezinho
O que para mim não é surpresa
Obedecendo à natureza
Não tenho outro caminho.
Em novo sai do ninho
Mas não sai desta lida
Se a pobreza é fingida
O que para mim não é verdade,
Mas obedecendo à idade
“E a habilidade está perdida”.

Trabalho por obrigação
Que já o meu pai assim fazia
Trabalhei noite e dia
Nos tempos que já lá vão.
Agora, assim, já não,
Nem sei a quem agradeço
O bem ou mal que mereço
Ou se um bem estou merecendo,
Mas como a vida vai correndo
“ Como um velho por ser, conheço”

Quantas vezes eu sozinho
E já no fim do serão
Ainda pego no garrafão
E lá vai mais um copinho.
Que eu sempre gostei de vinho
E dei valor à bebida
Esta já achada ou perdida
Quero que vá até ao fim,
Meus amigos é assim
“A história da minha vida”.

ANTÓNIO MANUEL SANTOS SERRA

Natural: Horta do Jarego de Cima
Data do Nascimento: 12 de Fevereiro de 1964
Residência: Alandroal
Faz poesia desde os 13 anos.

MOTE

Vou dizer o que ganhava
No tempo em que era pastor
O meu povial não prestava
Nem sequer tinha valor.

Ganhava sete galinhas
Cinco patos e três piruns
Ratos também tinha alguns
E também tinha uma burrinha.
Eu tinha uma cadelinha
Que nem p´rás sopas prestava
Era mouca e não ladrava
Sem dentes e já não comia,
Coitadinha já não via
“ Vou dizer o que ganhava”.

Eu ganhava muito pouco
Não chegava para comer
Vou então aqui dizer
Que eu tinha também um porco.
Ele já estava tarouco
Não tinha nenhum valor
Era um grande estupor
Era muito preguiçoso,
E eu tinha um gato guloso
“ No tempo em que era pastor”.

Tinha uma ovelha com ronha
Não prestava para criar
E também tinha a lavrar
No alqueive uma cegonha.
Tinha uma almofada sem fronha
Toda ela se rasgava
Eu às vezes até dava
Metade do meu povial
E eu ganhava muito mal
“ O meu povial não prestava”.

Eu tinha uma burra cega
Mouca que nem uma porta
Já tinha a cabeça torta
De eu lhe pregar com a régua.
Eu tinha ainda uma égua
Que m´a deu certo pastor
Fazia seja o que for
Para me desfazer da magana,
E rebentou-me a cabana
“ Nem sequer tinha valor”.

Nome: AUSENDA VICÊNCIA BALSANTE RIBEIRO
Natural: de Alandroal
Data do nascimento: (“ de uma Senhora nunca se diz”)
Residência: Alandroal
Faz poesia desde muito nova.
Tem obra publicada (MOMENTOS)

MOTE
Autenticas maravilhas
Existem no Alandroal
Suas aldeias e vilas
Suas gentes sem igual.

Na província Alentejana
Situa-se esta beleza
Prodígio da natureza
Em sua paisagem plana.
Alandroal vila ufana
Não tendo mar nem ilhas
Senão a distante milhas,
Deu-lhe Deus Nosso Senhor
“Autenticas maravilhas”.

Ser sua filha me apraz
Viver nesta calmaria
É bem que não trocaria
Por qualquer outra paz.
Sei que há anos atrás
A rainha de Portugal
Passeando a família real
Por montados e pomares
Reconheceu que puros ares
“Existem no Alandroal”

Julgam-no concelho pobre
Mas por vezes a pobreza
É mais rica que a riqueza
Quando não se é rico mas nobre.
Quem o visitar descobre
Mentiras, vamos bani-las
Dão-lhes todo esse valor,
Tornando-o concelho mor
“Suas aldeias e vilas”

Não há no país inteiro
Um jeito de bem receber
Como ele o sabe fazer
Seja filho ou forasteiro.
Ele é sempre hospitaleiro
Terra minha, Alandroal
É um dom de Portugal
E mostram bem sua valia,
No trato e na simpatia
“Suas gentes sem igual”.

SENTIMENTO

Ser mãe é ser diferente,
É sentir que há outra vida
Dentro da vida da gente.

Alegria jamais sentida,
Tão bom é o que se sente
Nesta experiência vivida!

Germinar de um novo ente;
O nosso “eu” revivido
Reflexo da própria mente.

Um filho de nós nascido,
Gerado no nosso ventre
Há lá algo mais querido?!…

SONHO COLORIDO

Se eu fosse um pintor
Pintava o ódio da cor do amor.
Pintava a fome da cor da abundância.
Pintava a tristeza da cor da alegria.
Pintava a severidade da cor da tolerância.
Pintava a mentira da cor da verdade.
Pintava a dor da cor do alívio.
Pintava a desventura da cor da felicidade.
Pintava o vício da cor da virtude.
Pintava o egoísmo da cor da nobreza.
Pintava a doença da cor da saúde.
Pintava a ignorância da cor da sabedoria.
Pintava os políticos da cor do acordo.
Pintava a guerra da cor da harmonia.
Se eu fosse um pintor…
Pintava o Mundo da cor do Amor!

JOSÉ ANTÓNIO PAIS

Natural de Hortinhas
Data de nascimento: 5 de Outubro de 1928

MOTE

Quando eu era solteiro estava
Na taberna a toda a hora
Nunca a minha mãe ralhava
Como a mulher ralha agora.

Creio que tu ainda não vistes
Que não sou alcoolizado
É para passar um bocado
Esquecer-me das horas tristes.
Ainda não desististes
De veres se me “desmaginava”
Cada vez mais avivava
E continua a avivar,
Neste ditoso lugar
“Quando eu era solteiro estava”

Quando tu mais vás ralhando
Pior para ti vai sendo
Sempre me lá vou entretendo
E entretenho-me de vez em quando.
Eu vou para lá em calhando
Seja logo ou seja agora
Com muita ou pouca demora
Isso aí já é diferente,
Sou visto por toda a gente
“Na taberna a toda a hora”.

Se eu andasse a trabalhar
E houvesse um dia feriado
Logo lá estava pregado
Na taberna a petiscar.
Ninguém me mandava chamar
O tempo todo lá passava
Sabiam que eu lá estava
Mas sabiam que estava bem
Se não ofendesse ninguém
“Nunca a minha mãe ralhava”.

O tempo da mocidade
Que é tão lindo de passar
Todos o queremos deixar
Em chegando a certa idade.
Até que um dia mais tarde
Vimos que o que é bom vai-se embora
Mas é já tarde essa hora
Reparem bem no que digo,
Ninguém ralhava comigo
“Como a mulher ralha agora”.

MOTE

Eu ontem apanhei um tordo
Assei-o, soube-me bem
Nunca vi pássaro mais gordo
Que o que a tua mulher tem.

Vilas, cidades e aldeias
Potes, tarefas e talhas
Corvos, milhanos e gralhas
Piscos, calhandras e tordeias.
Milhafres e águias feias
Há p´rá í pássaros a rodo
Até gaivotas no lodo
Há p´rá í cada bandada,
Por falar em passarada
“Eu ontem apanhei um tordo”

Isto é estar-me a gabar
Que sou grande caçador
Sempre dei grande valor
Ver os pássaros a voar.
Faço gosto em lhe atirar
Nem que venha um em cada cem
De vez em quando algum lá vem
Pendurar-se no ganchinho,
E muito bem temperadinho
“Assei-o, soube-me bem”

Sabem que há pássaros no ar
E também há pássaros no chão
Até há pássaros que estão
Escondidos para não se lhes tocar.
Mais difíceis de apanhar
Que os peixes com o engodo
Dão cabo do comer todo
Deixam tudo escangalhado,
Depois de bem depenado
“Nunca vi pássaro mais gordo”.

Às vezes ponho-me a pensar
O que foi feito da passarada
Via-se cada bandada
Hoje custa-se a encontrar.
Mesmo sem ninguém os matar
Vê-se um aqui outro além
Será das químicas também
Isto em mim é um “palpito”
Nunca vi pássaro mais bonito
“Que o que a tua mulher tem”

Termino esta Saga com um poema de um dos nossos maiores poetas ‘José Régio’ ele também um apaixonado pelo Alentejo e pelas suas gentes.

Fado dos Pobres

Aquela antiga beleza
Que vem descendo o passeio
Com seu ar de velha Alteza,
Seu velho folho de cassa
No peitilho de entremeio,
Diante duma vidraça,
Das tais que ofuscam a gente,
Pára a sonhar longamente…,
E ao voltar-se, de repente,
Estende a mão a quem passa!

Aquela rapariguinha,
Com olhos de malfadada,
Que ao declinar da tardinha
Vai, ao sabor do primeiro,
De canto em beco levada,
Ganha, assim, algum dinheiro
De que faz entrega à mãe,
Que ainda o ganha, também,
Se lhe aparece com quem,
No seu giro aventureiro…

Aquela velha do gato
Põe um quico na cabeça,
Roja um cambado sapato
De fivela desatada
No qual, às vezes, tropeça,
E em seda roxa estafada,
A saia em que anda metida
A sua carne sem vida
Nem parece andar vestida,
Parece ir dependurada…

Aqueles velhos dementes,
Qualquer um octogenário,
Quer ao fim da tarde são rentes,
Se é que o não são todo o dia,
Nalgum jardim solitário,
Vivem tão sem companhia
Que não têm na pensão
Em cujos baixos estão
Nem quem lhes pregue um botão
Nem quem lhes dê um bom-dia…

Aquele frágil menino
Que guia o cego que arranca
Do seu roufenho violino
Ganidos do triste fado
Tem um rubor na tez branca,
Se atira um verso guinchado,
Que diz que o podre do cego
Vai perder esse aconchego,
Mai-la rabeca esse emprego,
Mai-lo fado um seu fadado…

Aquele velho que ostenta
Madeixas sobre as orelhas
Ou sobre a gola sebenta
E a unha grande saída
Das botas podres de velhas
— Foi honrado toda a vida,
Tem a mulher entrevada,
Tem seis filhos, não tem nada,
Trabalhou a vida honrada,
Pede esmola à despedida…

Aqueles olhos sem fundo
Que ardem, febris, na utopia
De sorver a vida, o mundo,
No seu sôfrego clarão,
Passam três quartos do dia
Sonhando, brilhando em vão
Sobre uma triste costura,
Numa triste loja escura
Duma rua sem ventura
Com casas de perdição…

Aquele estranho maneta
Que aos muros passa cosido
Com seu sorriso pateta,
Seu coco mais seus fundilhos,
Na guerra foi distinguido,
Perdeu mulher, perdeu filhos,
Vai para a taberna andando
Em que, bebendo e fumando,
Vegeta cantarolando
Velhos torpes estribilhos…

Aquela mulher cansada
Que esfrega casas a dias
E é feia, má, desleixada,
Sempre tem quem goste dela!
Que horas mortas, noites frias,
Quem quer lhe bate à janela…,
E assim é que um filho dorme
No seu bambo seio informe
E outro no seu ventre enorme,
Já tem quem sabe que estrela…

Aquele pífio janota
Da bota de polimento
Põe no cabelo e na bota
Pomadas em que gastou
Dinheiro do seu sustento
Do jantar que não jantou.
Só assim chique se atrela
À esquina dessa viela,
Fitando aquela janela
A que ninguém se assomou…

Aquela esguia figura
Que sobe e desce a calçada,
Roça os homens, e murmura
Coisas que ninguém atende,
Quando entra, de madrugada,
No quartinho em que se vende,
Nem se atreve a olhar o espelho
De onde a espreita um rosto velho
Sob o fingido vermelho
Da boca em lanho que o fende…

Aquele pintor doente,
Que dizem ter muito jeito,
Vive num bar indecente
Em que o seu sonho requinta
E aumenta o seu mal de peito.
Não tem pincéis, não tem tinta,
E, se parece que reza
Olhando o mármore da mesa,
É a pintar, com certeza,
Os quadros que nunca pinta…

E aquele senhor poeta
Que anda bêbado na rua,
Tem filáucias de profeta,
Traz barbas de vagabundo,
Lança estrofes à lua
E dorme num vão imundo,
Contenta-se com tão pouco
Porque diz, bêbado e rouco,
Que os seus poemas de louco
Poderão salvar o mundo!
José Régio (1901-1969)

‘pra’ mim, tudo isto é “Literatura de Cordel”, melhor, é poesia de ‘Jogral’, talvez devido ao isolamento, a que foi, sempre devotado e ao pequeno numero de habitantes por Km2, o Alentejo conseguiu manter as suas tradições intactas, bem como a maioria dos seus usos e costumes, no qual incluo o seu ‘falar’ , seu ’cante’ e a sua gastronomia, desde os dias de antanho até aos dias de hoje.

 

Pode ver pelo dicionário colocado neste espaço, algumas das palavras do ‘falar’ Alentejano:

http://webintercam.spaces.live.com/blog/cns!185B8A0F5289E719!1277.entry

Ao ver o capote da figura, não posso deixar de ‘malembar’ dos tempos de escola, onde toda a rapaziada tinha um capote, como o da figura, ainda tenho um, tem na gola pele de raposa, que meu pai mandou colocar, para que eu não me esquece-se, do ano que reprovei.

 

 

Esta SAGA ao fim chegou 
E no arregaçar das mangas, 
Que num desafio começou
Com trabalho até ás tantas

Alentejano, Poeta
Qual rouxinol a cantar
Vives em terra deserta
Mas não deixas de sonhar

Teu Cante, é bem formoso
Cantar a muitos padrões
Tens um som harmonioso
Em tuas belas canções

Eu agora, pus-me a pensar
Que foi feito do passarinho
Que um dia ouvi cantar
Debruçado sobre o ninho

Tem cordel de realejo
Tem cordel de Cantadores
Tem Jograis do Sertanejo
Tem Trovadores e amores

Agora… e com estes… tenho a certeza …. Pirei de vez…

No próximo ‘post’ … vou escrever sobre África (Moçambique, “eu menino e moço dos 22 aos 24- no local, onde os homens também choram e gritam pela mãe, sem vergonha nem pudor”).

clik aqui para abrir o Link da canção que acompanhou o Post

Vivências(3)…Continuação … e no arregaçar das mangas…

Cabra da peste”, é como são chamadas as pessoas que nascem no Nordeste Brasileiro, pessoas corajosas, valentes e boas e que, desde cedo, enfrentam os problemas causados pela seca,.

Asa Branca

Quando oei a terra ardendo
Quá foguera de São João
{ Eu preguntei(ei) a Deus do céu, ai
Pru que tamanha judiação?}[bis]
Qui brazero, qui fornaia
Nem um pé de prantação
{ Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão}[bis]
Inté mesmo asa branca
Bateu asa do sertão
{ Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração}[bis]
Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
{ Espero a chuva cai de novo
Prá mim vortá pró meu sertão}[bis]
Quando o verde dos teus oios
Se espaia na prantação
{ Eu te asseguro, num chore não, viu,
Que eu vortarei, viu, meu coração.}[bis]

clik aqui para abrir o Link da canção

Asa Brancaé uma canção de autoria da dupla Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, composta em 1947. Foi cantada por Luis Gonzaga e posteriormente por vários artistas ( Fagner, Caetano Veloso) etc.

O tema da canção é a seca no Nordeste brasileiro muito intensa, a ponto de fazer migrar até a ave asa-branca, obriga um rapaz a mudar da região. Ao fazê-lo, ele promete voltar um dia para os braços do seu amor.

Tive conhecimento do poema e da canção por Dilma Damasceno (http://dd-vivendo-e-aprendendo.spaces.live.com/).

Na continuação, do desafio “do arregaçar das mangas” … depois da introdução em vivências (1) e após procurar as raízes da Literatura de Cordel, em que o Brasil é o fiel depositário e continuador das trovas jogralescas de antanho tentarei, mesmo que de uma maneira simples e pouco rebuscada, dar alguns exemplos desta simples, mas bastante elaborada maneira de se fazer poesia. (alvitro a todos aqueles, que se queiram debruçar sobre o tema, a visitarem o espaço da Dilma elas os receberá condignamente como uma Nordestina e amiga da Natureza o sabe fazer).

“O mundo parece ser feito de coisas que agente vê nele. Mas há outras que não vemos, embora existam. São as coisas que lemos. Elas estão escondidas no meio das letras. É preciso ler para que elas apareçam directamente em nossas cabeças.

Se não lemos, todas essas coisas que estão guardadas nos livros não aparecem para nós. Quem não lê, só vê uma parte das coisas do mundo.”

Extracto de um apontamento da capa “Dicionário dos Sonhos” de “J.Borges” neste seu livrinho de Cordel e produzido pelo Ministério da Edução do Brasil.

Em Vivências (1) falei de J.Borges hoje coloco aqui:

http://www.ablc.com.br/

Lenda do Caipora

Autor: Gonçalo Ferreira da Silva

A humana criatura
se pergunta insatisfeita:
_Como uma coisa existe
sem nunca ter sido feita? –
Quem prega não prova nada
quem escuta não aceita.

Diz a gênese mosaica
que Deus Pai Onipotente
disse: “Faça-se a luz”
e a luz obediente
do atro abismo do nada
surgiu repentinamente.

Assim também são as lendas
as vezes surgem do nada
ou como remanescência
duma cultura importada
que sempre sensibilizam
gente não civilizada.

De acordo com tais lendas
há o regente do mar,
o deus dos mananciais,
 o gênio que rege o ar,
e é de um desses gênios
que nós queremos falar.

Vivendo na intimidade
da aconchegante flora
como um guardião que zela
a quem mais ama e adora
é o protetor da fauna
o lendário caipora.

E o caçador prudente
ao conduzir o seu cão
antes de entrar na mata
deve, por obrigação
ao caipora pedir
a sua autorização.

Senão estará sujeito
a ser desafortunado
ou inexplicavelmente
ficar desorientado
andando em círculo na mata
por tempo indeterminado.

Outras vezes algo estranho
fica o cachorro sentindo
andando em torno do dono
se lastimando e ganindo
sem que o dono perceba
quem o está perseguindo.

Outro artifício que é
pelo caipora usado
é reter o cão esperto
infantilmente acuado
latindo muito diante
dum toco designado.

“Hoje não é o meu dia”
pensa imediatamente
o caçador convidando
o cão desobediente
que abana o rabo, entretanto,
volta a latir novamente.

Agora o caçador sente
um inexplicável frio
tenta dominar o medo
porém sente um arrepio
algo como um mudo aviso,
um sentimento sombrio.

Pedras à feição de trempes
bota na mata fechada
acende fogo dizendo:
_Vamos parar a jornada
só depois da hora-grande
reinicia a caçada.

Mas depois da hora-grande
incompreensivelmente
ouve o caçador um longo
assovio à sua frente
o caçador intrigado
escuta detidamente.

Gira sobre os calcanhares
segue oposta direção
mas não percorre uma jarda
tem ele a decepção
de saber que o assovio
já mudou de posição.

E assim pra todo lado
em que o caçador for
segue o assovio como
se o assoviador
se entretenha mangando
da cara do caçador.

Um caçador nos contou
um curioso ocorrido
um caso igualmente aquele
nunca tinha acontecido
dessa vez o caipora
se deixou ser percebido.

Quando entrou na mata virgem
repentinamente viu
três porcos-do-mato que
quando ele os pressentiu
os alvejou um por um
até que o último caiu.

Quando ia dirigir-se
aos porcos mortos no chão
um moleque apareceu
com um enorme ferrão
montado num porco-espinho
na densa vegetação.

E enfiando o ferrão
nos flancos dum animal
mandou-o se levantar
que o tiro não foi mortal
o porco saiu correndo
por dentro do matagal.

Repetiu com o segundo
essa mesma operação
e no terceiro também
ele enfiou o ferrão
os animais dispararam
sem vestígios de lesão.

A seguir o caipora
dirigiu-se a um ribeiro
simulando raiva disse:
_Vou amanhã ao ferreiro
consertar este ferrão
pra ele ficar linheiro.

Logo o caçador pensou:
“Amanhã eu vou ficar
na porta da oficina
ver se alguém vai chegar
com um ferrão como este
para mandar consertar”.

Chegando em casa, sequer
colocou da porta a tranca
num dos cantos da latada
colocou sua alavanca
e depois da sua esposa
acariciou a anca.

E foi dormir levemente
para acordar muito cedo
para saber se o ferreiro
conhecia algum segredo
porque durante a caçada
pra ser franco, teve medo.

O sol já estava alto…
o caçador conversando
com seu amigo ferreiro
sobre negócios tratando
quando avistaram um vaqueiro
que vinha se aproximando.

Quando o vaqueiro apeou
foi exibindo um ferrão
dizendo para o ferreiro:
_Tenho muita precisão
que conserte este instrumento
com a maior perfeição.

Sem querer teve o ferreiro
um leve estremecimento
mas consertou o ferrão
naquele mesmo momento
e disse para o vaqueiro:
_Eis aí seu instrumento.

Disse o vaqueiro: _ O ferrão
está como me convém
fitando o caçador disse:
_Preste atenção muito bem
o que você viu de noite
não conte nunca a ninguém.

Fim

Outro Autor … apontamento retirado na integra do sitio do mesmo.

Filho de pai (Manuel Gonçalves Souto Maior) comerciante e de mãe (Maria da Mota Souto Maior) fazendeira, nasci no dia 14 de julho de 1920, na cidade de Bom Jardim, Pernambuco, pelas mãos de sinhá Aninha, velha comadre muito conhecida e respeitada em toda a região. Fui um menino como todo menino nordestino. Chupei dedo, cacei passarinho e lagartixa com baladeira, joguei castanha na calçada, furtei goiabas e cajus, brinquei de Lampião e de António Silvino com frutos de jurubeba, tomei leite ao pé da vaca e comi muito nambu assado na fazenda Taperinha do meu avô materno Presciliano da Mota Silveira que, com os seus 97 anos, ainda faz muita proeza. Com nove anos de idade aconteceram duas coisas na minha vida: ganhei um velocípede e me botaram na escola da professora Santinha. Foi quando cometi uma falta muito grave: rasguei a carta de ABC (Paulina mastigou pimenta. Delfina comera araçás. A preguiça é a chave da pobreza. Que saudade…) e atirei na cara da professora, rebeldia que paguei com juros bem altos e por intermédio de uma tabica de jucá. Depois, o velocípede quebrou-se, fiz as pazes com a professora, passei para o Primeiro Livro de Leitura de Felisberto de Carvalho e para a Série Braga. Meu pai, que sempre foi um matuto muito inteligente, resolveu fazer o maior sacrifício de sua vida, comprando uma casa na rua do Hospício, no Recife e botando todos os filhos no Colégio Marista, onde passei oito anos, só saindo para fazer o curso pré-jurídico no Instituto Carneiro Leão, do Dr. César. Quando estudante no Recife fundei, com Guerra de Holanda, Nestor de Holanda, Pelópidas Soares, Sousa Leão Neto, Isaac Schachnick e outros, o jornal Geração e andei colaborando no suplemento literário do jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco, em Fronteiras de Manuel Lubambo, em Nordeste de Aderbal Jurema, em Esfera de Maria Jacinta, em Vamos ler. Convivendo com Ledo Ivo e Breno Accioly virei poeta e publiquei Meus poemas diferentes (1938), duzentos e cinquenta exemplares por duzentos e cinqüenta mil reis que meu pai pagou na tipografia do Sr. Maurício Ferreira, na rua do Rangel. Por essa época, quando fazia o Tiro de Guerra 303 da Associação Comercial, na rua da Imperatriz, a baioneta de um colega bateu no meu olho esquerdo com tanta força que ele nunca mais prestou, ficando, sem querer, colega de Camões, mesmo sem andar por mares nunca dantes navegados… Com a pancada do olho, fui passar uma temporada em Bom jardim onde meu pai era o perfeito. Aconteceu que houve um eclipse do sol e o poeta Gomes de Moura que era o secretário da Prefeitura, em homenagem ao fenómeno, tomou um pifão tão grande que passou três dias sem aparecer no trabalho. Fui nomeado secretário, ganhando quatrocentos mil réis. Desde os quinze anos eu tinha uma namorada (que é hoje a companheira de todos os momentos) que era minha prima e como o meu pai era inimigo político do pai dela, o namoro era tipo jacaré, à distância, às escondidas, nas missas de domingo, nas novenas de maio, no circo, no cinema mudo de António Lulu, carta vai e carta vem. Com o dinheiro do meu primeiro emprego comprei uma roupa de caroá e outra de carrapicho, umas camisas, um par de sapatos e guardava a sobra. Casei quando estava no terceiro ano de Direito e foi quando perdi o emprego. Fui nomeado promotor público de Surubim e, logo depois, exerci as mesmas funções na comarca de João Alfredo, onde passei oito anos. Com a família sempre aumentando fui obrigado a deixar a literatura, uma vez que a luta pelo feijão era muito mais importante do que a luta pelo sonho. Meti o pau a trabalhar. Fui perfeito de Orobó. (Naquele tempo o povo ficava com raiva quando se dizia que Orobó era a terra onde peru dava coice, candeeiro dava choque e onde o cisco fazia a curva), agente do Censo, vendi cestas de Natal e apólices de seguro, criei galinhas, advoguei, ensinei ciências e geografia no colégio das freiras e fundei o Ginásio de Bom Jardim destinado à rapaziada pobre de minha terra completamente entregue às actividades agropecuárias. É que eu tinha sete filhos, sete pares de queixos batendo três vezes por dia, além da roupa, calçado, remédio e instrução. Como em Bom Jardim existiam cinco chefes políticos e todos eles eram advogados, eu só pegava questão de pobre, de pouco ganho. Cheguei a ser advogado dos presos pobres ganhando uma ninharia por mês. Com meu irmão Moacir Souto Maior publiquei Roteiro de Bom Jardim (1954), uma monografia sobre a terra natal. Até que um dia a vida teve que mudar com minha nomeação para inspector federal de ensino, quando me vi obrigado a deixar tudo para rnorar na cidade grande. Voltei a escrever porque Mauro Mota, director do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, me pediu um artigo sobre folclore. Descobri, então, o mundo maravilhoso do folclore, o meu mundo de menino. E, como numa tentativa de voltar ao passado e também para matar a saudade, comecei a trabalhar no Cachaça no Presença do Alfenim no Nordeste Brasileiro, no Como Nasce um Cabra da Peste e nos que ainda estão sem título. Aí está a minha vida.

http://www.soutomaior.eti.br/mario/

nos links seguintes pode acompanhar a voz do autor.

http://www.soutomaior.eti.br/mario/arquivos/taperinha(11).wma

http://www.soutomaior.eti.br/mario/arquivos/deserto(2).wma

http://www.soutomaior.eti.br/mario/arquivos/poema(13).wma

 

Cabra da Peste, Poeta e Escritor Paraibano.Trata-se de Geraldo Xavier de Oliveira, de Itabaiana, atualmente residente em Vitória da Conquista, na Bahia, onde fixou residência e montou casa e família. Dono de uma veia poética inquestionável e além de explicitamente simpático, Geraldo gosta mesmo é de contar casos, sendo ele o primeiro a provar a "Origem Extra terrestre do Nordestino". É  membro da Academia Conquistense de Letras, cadeira 06, que tem como patrono Castro Alves. Dentre as obras que publicou, destaca A quadratura do Círculo – histórias – com publicação reduzida; Inéditos: O arco-íris nocturno (poesias, crónicas e casos), De onde viemos (romance jocoso) onde prova a origem extraterrestre do nordestino; Um olhar para trás (romance regionalista); Órfão de pai vivo (romance); A vila (romance); O reino de Qualquer Coisa (histórias sobre a origem da Democracia e do Capitalismo); Memórias de um amnésico (história curta); Joana e os loucos (peça teatral)

O ispêio
Geraldo Xavier
 

Zequinha de Filomena
marido de Manuela
foi um dia para a fêra
comprá as coisa prá ela.
Entre as coisa a sê comprada
tinha a mardiçoada,
a bendita da gamela.

A gamela inté foi fáci
di incontrá prá patroa.
Uma gamelona grande
pariceno uma canoa,
mai maió do qui beju,
toda feita im mulungu,
qui é madêra das boa.

Gamela, prá quem num sabe
li digo nesse momento
é adonde os povo bota
a cumida, os alimento.
Sem sê de barro ou de frande
é uma vazia grande
onde os poico come dento.

Dêxa a gamela prá lá
vamo falá de Zequinha
qui tinha ido prá fêra
prá fazê umas comprinha.
Só prá dona Manuela,
duas fita amarela
e um brinco prá mãezinha.

Tinha qui comprá tomém
prá sua mãe um nuvelo
de linha "corrente" branca
e prá dona Consuelo
ele tinha qui comprá
pelo meno um adidá
de ólho par’ os cabelo.

Chumbo prá caçá lambu,
meio quilo de toicim,
uma caxinha de grampo,
uma dúiza de afinim,
a goma de tapioca
levá prá dona Maroca
um quilo de mudubim.

Já depôi das compra feita,
de comprá tudo da fêra,
Zequinha ficô na praça
fazeno ar de lezêra
e parô numa barraca.
Foi quano tossiu a vaca,
foi quano ele fez bestêra.

Na barraca, bem surtida,
qui tinha tudo im premeio
foi qu’ ele viu uma coisa
qui tinha um lado vremeio
e o outo era brioso:
um obijeto formoso
qu’ os povo chamava ispêio.

Ele comprô o negoço
e ficô adimirado
num cansava de oiá
pru obijeto cumprado
e cada vez dava um ai,
pôi si alembrava do pai
qui há munto era finado.

Chegano im casa iscondeu
dento di sua maleta
prá num dá outo à muié,
nem fazê munta gazeta.
Sabia qui Manuela,
se visse, quiria o dela,
a coisa ia ficá preta.

E, todo dia, ele ia
oiá bem iscundidim.
Abria a mala e ficava
oiano no iscurim,
o coração dano ai.
Dizia: papai, papai
e bejava o ispeim.

Inté qui um dia a muié
passô a discunfiá.
Pru qui era qui Zequinha,
na hora di alevantá,
pensano qu’ ela drumia,
pegava a mala e abria
e ficava a muimurá?

Apruveitano qui um dia
ele foi par’ o roçado,
abriu a maleta e viu
o obijeto guardado.
Quano si viu no ispêio,
seus óio ficou vremeio
e cuage abuticado.

Gritô, chamano: – Mamãe,
venha vê a disgracêra,
qu’ o traste di meu marido
trouxe um dia da fêra!
Ô meu Deus, ô qui disgraça
mai hoje o dia num passa
qui eu faço uma bestêra.

– Vô preguntá pru safado
quano vortá da labuta.
Hoje aqui vai tê sangue.
Hoje aqui vai tê luta.
Vô preguntá: Ô marido,
pruquê tu trai iscundido
o retrato dessa puta?

Ele vai tê qui isplicá
tudo tintim pu tintim.
Mi isplicá a disfeita
qui ele fez para mim.
Pruquê, mamãe, no momento
acho qui meu casamento
parece qui foi ao fim.

A véia, tomém chorosa,
oiava a cara da fia,
agarrada no ispêio,
gritando: Jesus, Maria!
Inté qui num supetão,
pulou e tumô da mão
da fia, a quinquiaria.

E quano a véia oiô
no ispêio, qui ispanto,
ficô tremeno na hora
pariceno inté quebranto.
Caiu pru cima da fia,
quebrô a mão e bacia
e as dua caíro im pranto.

– Minha fia, qui disgraça!
O qui tem acunticido?
Eu vô tê qui cunvessá
cum o tá di teu marido.
Imagine ele trazê
dessa feia de morrê
esse retrato iscundido!

– Minha fia, seu casoro
acho qui num tem futuro,
todo seu amô pru ele
foi jogado no munturo,
s’ acaba de li trocá
pru outa qui é iguá
um maracujá maduro!

– Fia minha, mi adiscurpe
o qui tô li ispilicano.
Essa qui ele arranjô,
mi diga qui é ingano.
Cuma é qu’ ele trocô
você, pru esse istupô
mai feia qui Cuca Gano?

Quano Zequinha chegô
a muié fechô a porta,
arrancano a taramela
e a véia, cum a mão torta,
batero intão do rapai
e só num batero mai
pruquê tavam cuage morta.

Zequinha só apanhava
sem sabê quá a rezão.
Era pau, chicote e rêio
no lombo do cidadão
inté qu’ ele num guentô,
caiu, se isburrachô,
istribuchano no chão.

Quano Zequinha acordô,
consiguiu o zói abri,
a véia, d’ ispêi na mão
e a fia sem si ri
dissero: – Agora é luta
mai a foto dessa puta
você vai tê qu’ inguli.

Zequinha só pidiu água
rispirano feito fole,
pôi o ispêio na boca,
pensano qui era mole,
cum o zói isbugaiado
e a véia de oiá irado
dizia: – Vai, cabra, ingole!

Ele tentô inguli
mai o bicho num dicia.
Ele oiava prá muié
e a véia insistia,
cum o sembrante amuado:
– Ói aqui, cabra safado,
arrespeite minha fia!

– Agora você vai vê
uma muié de valô.
Trate de inguli tudo,
sem recei e sem temô.
O castigo qui sofrê
é pouco prá aprendê
a num sê namoradô!

Zequinha si ajueiô,
fez o siná, se benzeu,
pidiu pru todos os santo,
São Filipe e São Tadeu.
Cuage ia sufocano
cum mãe e fia impurrano
inté qui o bicho deceu.

Se inguli num foi fáci
imagine a saída.
Zequinha ficô desdia
cum a barriga criscida.
Cuage toda vizinhança
cada vez qui via a pança,
li chamava de parida.

Inté qu’ um dia, o coitado
precisô fazê aquilo.
Atrepô num cajuêro,
no mêi do mato, tranquilo.
Rezô prá todos os santo,
era choro, reza e pranto
sem ninguém prá acudi-lo.

Puracaso ia passano
ali pru pert’ um vaquêro,
qui ia atrás dum bizerro
fura-cêica e baguncêro
e, ao uvi os gemido
assuntô o sucedido,
a causa do disispêro.

Dibaxo do cajuêro
ele uviu o gemido
e quano oiô lá prá cima,
ficô munto istarricido,
meio bobo, meio mudo:
era um vaquêro cum tudo,
só qui meio invertido.

Como tava mei iscuro
ele acendeu um facho,
alumiô o qui viu,
ficô cum cara de tacho.
E aí vêi um istalo:
er’ um vaquêro, a cavalo,
de cabeça para baxo.

Ficô oiano prá cima
inté qui uviu um gemido.
Gritô: – Aima, apareça,
qui eu tô é privinido.
Foi quano Zequinha disse:
– Home, dêxe de tolice,
é eu qui tô intupido.

O vaquêro oiô di novo,
fitano a coisa no meio.
Oiô, tornô a oiá,
chêi de medo e receio,
já qui pru seu disispêro
ele, um pobre vaquêro,
num sabia o qu’ era ispêio.

Mai, mêrmo assim, arriscô
o seu parpite, na hora:
– Cumpade, tu tá lascado
pelo qui eu vi agora.
O qui tá atravessado
é um vaquêro amuntado,
inganchado nas ispora!

– Ispiano bem mió
oiano bem para a peça
posso li dizê agora
sem tê medo, sem tê pressa
e sem querê maguá-lo:
tô de ôio no cavalo
qui é qui interessa.

– Óia aqui, meu camarada,
essa coisa cuma é,
o vaquêro, no teu rabo
parece qui tá im pé.
Si isprema inté rangi,
qui si o cavalo saí,
pago o preço qui quizé!

Sites visitados:

http://www.cabrasdapeste.hpg.ig.com.br/principal1.htm

http://www.ablc.com.br/

http://www.joraga.net/gruposcorais/pags/02outrasObrasX.htm

http://www.ceara.com/

http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://tadechuva.weblog.com.pt/arquivo/rosa/rosa.bmp&imgrefurl=http://tadechuva.weblog.com.pt/arquivo/_no_solar_da_rosa/index.html&h=493&w=313&sz=453&hl=pt-PT&sig2=9JRoIzKf4NVVEUPK-tN8Gg&start=6&tbnid=I55cTipNGkVM2M:&tbnh=130&tbnw=83&ei=UdBFRc7oFL-4SZ_1mMIK&prev=/images%3Fq%3Dfado%2Bvadio%26svnum%3D10%26hl%3Dpt-PT%26lr%3D

http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=312&textCode=795&date=currentDate

http://www.maricell.com.br/maricell_md.htm

Não quero deixar este post sem umas linhas sobre os Repentistas. Quais Jograis dos dias de hoje, na realidade turística do Nordeste Brasileiro.

Os Repentistas

O que são os "Repentistas"? Uma dupla que improvisa (o "repente"), sobre os mais variados temas, ao som de uma música extremamente simples -quase monótona tocada em violões ou violas, que invariavelmente denotam um uso excessivo.
Enquanto uma toca o vilão ou a viola, o outro improvisa. Ao final de um verso de geralmente seis a dez linhas, o outro começa a improvisar e quem estava cantando passa a tocar. Os turistas viram "doutor" e "doutora", e são objecto de comentários produzidos pela prodigiosa imaginação dos repentistas; os melhores garantem uns dez minutos de gargalhadas, tanta sua criatividade. 
O repentista em geral fixa seu preço -dependendo do número de pessoas na barraca cantando, ao fim do seu show. Um casal pode dar, por uns minutos de show, algo entre R$ 5,00 e R$ 10.00 para a dupla. Grupos maiores chegam a dar R$ 10,00 para cada repentista. Depende de quanto você desfrutou o show.

Abordagem

O repentista não pede autorização para começar seu show; aproxima-se da barraca e começa cantar. Ao fazê-lo apontará ao integrante da plateia ao qual se referem seus comentários e dirá algo elogiando alguma qualidade, real ou suposta, do turista. 
Se você não quiser o "serviço" simplesmente faça um gesto indicando que não deseja ouvi-los e se retirarão sem qualquer problema. Mas pelo menos uma vez faça a experiência (geralmente são todos muito bons, mas para não arriscar ouça-os primeiros numa barraca vizinha e depois chame-os).  
Se tiver câmara de vídeo, filme-os. Vai adorar mostrar aos seus amigos os comentários que a dupla fez sobre você e seus acompanhantes.

Junto parte do artigo descrito em:

http://www.infonet.com.br/versoseviola/cantoria.htm#topo

A poesia, atravessando a fase colonial, veio alcançar seu apogeu na pequena Paraíba de Augusto dos Anjos e de José Américo, pois quiseram as divindades do Olimpo que, naquele torrão, bendito pelas sacrossantas musas di longinquo Parnaso, nasceram os maiores cantadores que tem notícia na história do folclore nacional.

"No Nordeste, os jesuítas catequizavam por meio da poesia por ficar mais fácil de conservar a mensagem na memória, seguindo assim o estilo da Grécia Antiga".

Ninguém melhor do que o cantador, pode sentir a variedade de quadros de que o cotidiano nos apresenta. Traz dos sertões para as cidades o retrato da natureza, na sua expressão criadora, bem como o do rigor que castiga dentro de suas leis imutáveis.

No entender de alguns estudiosos (intelectuais) o cantador tem uma imagem completamente distorcida da sua formação verdadeira. Isto porque já foi registrada a presença de cantadores caracterizados de vaqueiros, por incumbência de pessoas que fazem folclore com pouca profundidade no assunto. Então havemos de concluir que o cantador, o legítimo repentista, e o mais feliz dos imortais, porque seu mundo não é o da maldade, não é do egoísmo, e, sim, o doce paraíso das imaginações criadoras. Citaremos a sábia e patriótica expressão de Antônio Girão Barroso, conhecido escritor cearense: "Ai do país que abandona as raízes da cultura".

A cantoria de versos* improvisados ao som da viola é uma arte que floresceu no meio rural do Nordeste, especialmente no sertão, e que só aos poucos vem conquistando público das grandes cidades. A razão principal desse fato e possivelmente, o número crescente de pessoas que se deslocam do interior para as metrópoles em busca de melhores condições de vida, e levando consigo hábitos culturais profundamente enraizados.

"No começo deste século, a figura tradicional do cantador era a do indivíduo de inteligência aguda, escassas condições financeiras, muitas vezes analfabetos ou pouco letrados, cantando de feira em feira seus versos* geniais que garantiam a própria subsistência".

Embora o tema – nomes e datas fundamentais em torno dos poetas populares no Nordeste – já tenha sido rastreado por numerosos autores, vamos resumir o que Atila de Almeida condensou, a propósito, em recente ensaio intitulado "Requiem para a Literatura Popular em verso*, também dita de cordel", in "Correio das Artes", João Pessoa, 01.08.1982.

"1830 é considerado, historicamente, o ponto de partida da poesia popular nordestina. Em torno dessa data nasceram Urgulino do Sabugi – o primeiro cantador que se conhece – seu irmão Nicandro, ambos filhos de Agostinho da Costa, o Pai da Poesia Popular".

Nascidos na Serra do Teixeira (PB), entre l840 e 1850, foram seus contemporâneos os poetas Germano da Lagoa, Romano da mãe D’Agua e Silvino Pirauá. E já contemporâneos destes, Manoel Caetano e Manoel cabeleira. São os mais antigos cantadores conhecidos, todos chegando a década que se iniciou em 1890. A década que começou em 1860 viu nascer grandes nomes, como João Benedito, José Duda e Leandro Gomes de Barros. Mais adiante, na década que se iniciou em 1880, nasceram Firmino Teixeira do Amaral, João Martins de Ataíde, Francisco das Chagas Batista e Antônio Batista Guedes.

Diferente do que acontecia em qualquer parte do Brasil, sabe-se que no Nordeste, o cantador independia de acompanhamento. No fim de cada pé, terminando-se cada linha do verso*, dava um arpejo na viola ou rebeca. Entre um verso*(estrofe*) e o seguinte, entoado pelo antagonista executava-se algum trecho musical, alguns comparsos.

"Os velhos cantadores do Sertão Nordestino do Brasil só tocavam as violas ou soavam os pandeiros nos intervalos dos cantos. Desafio* simultaneamente acompanhado da viola é posterior a 1920 " .

" Nossos repentistas, cantadores e poetas populares, foram, no entanto, até cerca de 1920 ou de 1930, uma expressão de intelectuais dos sítios, das fazendas, das vizinhanças, do mundo em que vivera. Os desafio*s dos violeiros são tão velhos quanto o mundo" .

A viola, como as demais criações do homem, tem sua presença marcante desde sua criação, até os dias atuais. A viola é um instrumento de caráter onomatopáico*, embora haja quem lhe atribua origem germânica. É a designação genérica de uma família de instrumentos de corda, tocados com arco de crina, produzindo som mais melancólico, menos claro e de timbre nasal.

O primeiro instrumento do cantador sertanejo parece ter sido a viola, menor que o violão (guitarra espanhola), do qual não há notícia, entre nós, antes do Sec. XVIII. A viola de pinho, viola de arame, com 5 ou 6 cordas duplas, é citada entre outros aqui, pelo Padre Fernão Cardim. Antigamente, depois de cada vitória o cantador amarrava uma fita colorida em suas cravelhas*.

Entre os poetas populares, ainda preserva-se algumas supertições quanto ao uso da viola. Diz-se que esse instrumento sofre a influência da lua. Na lua nova e na força da lua não se guarda viola afinada, porque ela pode ficar corcunda, entortar e rebentar as cordas. Madeira para viola deve ser cortada nos meses que não tem "r": maio, junho, julho e agosto, e na minguante, para nunca apanhar caruncho*.

Há um certo consenso entre os cantadores, que o repentista que se preza não carrega viola debaixo do braço, e sim, na mão, segurando-a pelo braço. A viola é uma mulher e quem sai com ela na rua, a leva de braço dado. A axila é lugar de escorar a muleta e não a viola, que carregada debaixo do braço fica reumática, não afina mais, fica mancando das cordas.

Na continuação iremos até ao 4º e final sobre este tema, bem bonito, em que fui desafiado, por uma Cabra da Peste.

I

Se continuas a SAGA,
aplaudo, de viva voz…
pois, no Cordel, se propaga,
a SAGA de Todos Nós!

II

A saga de todos nós
num Cordel de muito querer
aqui a deixo pra vós
porque Jogral, não sei ser

Vos deixo apontamentos….
de trovadores e Repentistas
mas foi um cabo dos tormentos
compilar tudo, sobre os artistas.

São artista de mão cheia
esses ‘Cabras da Peste’
que no Cordel criam teia 
pro lados do Nordeste. 

Eu a dar em poeta!… Ena!…, agora é que foi de vez … pirei…

Para escrever este ‘post’ me socorri da Net e dos seus motores de busca em especial do Google.

A um caderno de cordel de J.Borges “Dicionário dos Sonhos e outras histórias de cordel”, oferta de um Pernambucano de Caruarú, Fábio Mário a fazer mestrado na Universidade de Évora em Literatura Lusófona.

A Lana Lacerda de Lima, Médica em Pau de Ferros cidade do interior do Rio Grande do Norte, que me ofereceu “ PAPO JERIMUM” dicionário rimado de termos populares de Cleudo Freire, para eu poder entender ‘direitinho’ o Nordestino.

Crescer, desenvolver é disarná
Quem não cresce fica incruado
Ali mermo ele topo
Tá encolhido, teso, tá incriquiado

E Dilma Damasceno , “lendo, escrevendo, fantasiando, e me cercando de natureza. Converso com meus animais de estimação, converso com familiares e amigos, trabalho bastante, e assim, a vida vai passando, quase sem doer! Mas, como sou humana, às vezes me encolho num casulo. Então, penso, repenso, e quando ouso sair e voar, na "imaginação" realizo meus sonhos remanescentes, de forma plena e delirante! Prefiro continuar assim! Em verdade, já me acostumei com essa liberdade de ser só”, Ilustre Advogada em Natal, capital do rio Grande do Norte. A grande amiga que me tem iniciado noutra visão do Brasil e em especial do seu querido Nordeste. (http://dd-vivendo-e-aprendendo.spaces.live.com/).

clik aqui para abrir o Link da canção

Já só falta a parte 4… é já a seguir… O Cordel Alentejano… tambem existe?…

Vivências(2)…Continuação … e no arregaçar das mangas…

Figuras do Trovadoresco galaico-português

Trovador, na lírica medieval, era o artista de origem nobre que, geralmente acompanhado de instrumentos musicais, como o alaúde ou a cítola, compunha e entoava cantigas. Vários reis portugueses foram trovadores, como D. Sancho I e D. Dinis. Os filhos bastardos de D. Dinis, o conde de Barcelos e Afonso Sanches, herdaram o talento do pai e também escreveram poemas.

Ainda que seja coerente a afirmação de que quem tocava e cantava as poesias eram os jograis, é muito possível que a maioria dos trovadores interpretasse igualmente as suas próprias composições.

As cantigas, primeiramente destinadas ao canto, foram depois manuscritas e coleccionadas nos chamados Cancioneiros (livros que reuniam grande número de trovas). São conhecidos três Cancioneiros galaico-portugueses: o "Cancioneiro da Ajuda", o "Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa" e o "Cancioneiro da Vaticana".

Segréis, também nobres, mas que dispunham de poucos recursos, sendo por isso obrigados a lançar mão da poesia e da música como meio de subsistência.

Menestrel, na Europa medieval era o poeta bardo cuja performance lírica se referia há história de lugares distantes ou sobre eventos históricos reais ou imaginários. Embora criassem seus próprios contos, frequentemente memorizavam e floreavam obras de outros. À medida que as cortes foram ficando mais sofisticadas, os menestréis eram substituídos por trovadores, e vários deles tornaram-se errantes, apresentando-se para a população comum

Jogral, na lírica medieval, era o artista profissional, de origem popular (vilão, ou seja, não pertencendo à nobreza), que geralmente cantava ou tocava instrumentos musicais, como o alaúde ou a cítola. Alguns jograis compunham também as suas próprias melodias e poemas.

Soldadeiras, cantoras e dançarinas que se exibiam nas apresentações de Jograis.

 Cantigas de Amigo: Este tipo de cantiga, que não surgiu em Provença como as outras, teve suas origens na Península Ibérica. Nela, o eu-lírico é uma mulher (mas o autor era masculino, devido à sociedade feudal e o restrito acesso ao conhecimento da época), que canta seu amor pelo amigo (amigo = namorado), muitas vezes em ambiente natural, e muitas vezes também em diálogo com sua mãe ou suas amigas. A figura feminina que as cantigas de amigo desenham é, pois, a da jovem que se inicia no universo do amor, por vezes lamentando a ausência do amado, por vezes cantando a sua alegria pelo próximo encontro. Outra diferença da cantiga de amor, é que nela não há a relação Suserano x Vassalo, ela é uma mulher do povo. Muitas vezes tal cantiga também revelava a tristeza da mulher, pela ida de seu amor à guerra.

Cantigas de Amor: Neste tipo de cantiga, originária da Provença, no sul de França, o eu-lírico, masculino, canta as qualidades de seu amor, a "senhora", a quem ele trata como superior (para ele, ela é a suserana e ele, o vassalo, reproduzindo, portanto, o sistema hierárquico feudal). Ele canta a dor de amar e não ser correspondido (chamada de coita), e é a sua amada a quem ele se submete e "presta serviço", e, por isso, espera benefício (referido como o bem nas trovas).

Cantigas de Escárnio: Na cantiga de escárnio, o eu-lírico faz uma sátira a alguma pessoa. Essa sátira era indirecta, cheia de duplos sentidos. As cantigas de escárnio (ou "de escarnho", na grafia da época) definem-se, pois, como sendo aquelas feitas pelos trovadores para dizer mal de alguém, por meio de ambiguidades, trocadilhos e jogos semânticos, num processo que os trovadores chamavam "equívoco". O cómico que caracteriza essas cantigas é predominantemente verbal, dependente, portanto, do emprego de recursos retóricos. A cantiga de escárnio exigindo unicamente a alusão indirecta e velada, para que o destinatário não seja reconhecido, estimula a imaginação do poeta e sugere-lhe uma expressão irónica, embora, por vezes, bastante mordaz 

Cantigas de Maldizer: Ao contrário da cantiga de escárnio, a cantiga de maldizer traz uma sátira directa e sem duplos sentidos. É comum a agressão verbal à pessoa satirizada, e muitas vezes, são utilizados até palavrões. O nome da pessoa satirizada pode ou não ser revelado

Mas o que de momento nos interessa, são os Jograis… esses sim que ainda hoje existem, quer em Portugal quer no Brasil.

O JOGRAL

É um Intérprete cultural em vias de extinção

Nasceram em tempos medievos estes intérpretes culturais que resistiram durante séculos ao avanço do conhecimento das artes e das letras e hoje, estão em vias de extinção, mercê dos seus poucos seguidores.

Os que restam deste género artístico – a cultura jogralesca – são animais raros neste render de século.

Os jograis de antanho foram meios de comunicação privilegiados, amados e odiados, protegidos e acusados, defendidos e espoliados, conforme o teor e o alvo das sátiras – ora burlescos e anedóticos, ora subtis e espirituosos, ora mordazes e satíricos, os jograis não poupavam ninguém, citando, dançando, dizendo, cantando, cabriolando, ridicularizando.

Eternos viajantes do tempo, quais cavaleiros andantes montados em corcéis alados, tomaram assento na máquina do tempo e chegaram ao nosso tempo, pilotando máquinas de narizes fumegantes de poluição.

Os primeiros jograis de que reza a história são anteriores à fundação de Portugal.

Como veículos de cultura, quer palaciana, quer popular, tiveram influência da Provença, e ainda de Castela e Leão, cujas cortes eram procuradas e onde faziam poiso habitual.

Como cavaleiros errantes que eram, formavam uma confraria migratória – qual "república" em tempo de monarquia – viajando de corte em corte, por toda a península, que sempre foi a grande pátria dos jograis e trovadores galaico-portugueses.

Com D. Afonso Henriques, foi Guimarães capital administrativa, para mais tarde se assumir também como capital jogralesca.

Com a Igreja, rivalizaram protagonismos de comunicação, em lados opostos, com percursos e mensagens diferentes, por razões óbvias e demasiado evidentes. Aliás, a Igreja nunca aceitou a cultura jogralesca da idade média, chegando a considerar os jograis como "filhos do demónio", mercê de uma certa impotência em fazer calar aquelas vozes dissonantes, por incómodas, de algumas verdades que só eles tinham a coragem de dizer. Daí que, em tempo de procissões, só actuavam no fim das mesmas, tendo mesmo alguns jograis da época, apesar de mais ilustrados que muitos nobres e alguns clérigos, sido alvo do castigo da excomunhão.

Tinham os jograis ao tempo, uma reconhecida e permitida liberdade de expressão, bem à margem dos padrões convencionais da época, embora considerados na hierarquia como "vilões" pagos a soldo.

Era normal a vida dupla que viviam muitas vezes – a vida da corte, convivendo com reis, fidalgos e cortesãs, quantas vezes à margem das convenções ditas decentes, sendo protagonistas directos em orgias e escândalos – e a vida mundana e marginal, deambulando por ruas e tabernas, bordéis e estalagens, convivendo amiúde com vagabundos, soldadesca e meretrizes.

As cantigas de escárnio, muitas vezes mimadas e musicadas, eram as armas escolhidas para os duelos que travavam contra reis e cavaleiros, nobres e fidalgos, clérigos e meirinhos, juízes e físicos, freiras e abadessas, cuja vida devassavam a verdadeiro fio de espada.

Mas tinham os jograis um código de honra, uma linha de conduta ética, onde a solidariedade não era palavra vã e o plágio assumia foros de crime infame e abjecto.

Foram odiados, tolerados e protegidos por reis e nobres, que os espoliaram e expulsaram, mas também lhes outorgaram privilégios e riquezas.

D. Dinis foi o monarca português que mais protegeu os jograis – esse rei poeta que também escreveu cantigas de amigo – o primeiro rei culto da história do país, interessado nas artes e nas letras, desde cedo, influenciado por sua mãe, a Condessa de Bolonha, e mais tarde apoiado por sua mulher, a Rainha Isabel, que nutria respeito e admiração pela arte jogralesca e trovadoresca. Neste reinado, a par de outros acontecimentos marcantes na vida deste novo país, dois fizeram história:

  • A primeira compilação de poesia jogralesca.
  • A fundação da primeira Universidade, escola de todas as ciências e saberes.

Algumas vezes comedidos, muitas e muitas mais sem tento na língua, autênticos arautos de profecias, de boas-novas e desgraças, os jograis tiveram, através dos séculos, o raro condão de se manterem iguais a si próprios.

Poetas e músicos, cantores e bailarinos, incómodos e sarcásticos, subtis e irónicos, espirituosos e satíricos, marginais e trocistas, polémicos e inconformados, burlescos e boémios, escandalosos e zombeteiros, chegaram praticamente incólumes aos nossos dias, com as mesmas virtudes e defeitos, talvez só adaptados às modernas formas de convivência – sem chapeirão nem espada, losangos e chapins pontiagudos, mas de fato e gravata, sapatos de polimento, telemóvel, cartão de crédito e acesso à Internet.

Parentes próximos dos jograis da idade média, mas vivendo uma realidade de séculos já passados, são um pouco a imagem dessa viagem no tempo, os Jograis de hoje, porque continuam iguais a si próprio, tal como em tempos idos.

Cantam o povo, os poetas, a cidade.

Pelejam com as armas da subtileza e da ironia.

Correram o país, passaram pelas rádios, têm honras de vedetas da televisão.

Os Jograis

Já fizeram grande história

nos saraus de D. Dinis

E o seu encanto quis

Que ficassem na memória

Hoje um dia já diferentes

Ainda dão à poesia

A vida que ela merece

Rogando agora uma prece

Que ela não morra é o que queria

Que não acabe

De quem ela goste

Porque no país já fez história

De Camões a Pessoa

Que ela sempre fique na memória

 

Cantiga de Amigo escrita por D. Dinis

Em português arcaico

Ay flores, ay flores do uerde pyno,

se sabedes nouas do meu amigo !

Ay Deus, e hu é ?

Ay flores, ay flores do uerde ramo,

se sabedes nouas do meu amado !

Ay Deus, e hu é ?

Se sabedes nouas do meu amigo !

aquel que metiu do que pos comigo !

Ay Deus, e hu é ?

Se sabedes nouas do meu amado,

aquel que metiu do que mh á jurado ?

Ay Deus, e hu é ?

Vos me preguntades polo uoss’amado,

e eu be uos digo que é san’ e uiuo

Ay Deus, e hu é ?

Vos me preguntades pólo uosso’amado,

e eu be uos digo que é uiu’ e sano

Ay Deus, e hu é ?

E eu be uos digo que é san’ e uyuo,

e seera uosc’ ant’ o prazo saydo;

Ay Deus, e hu é ?

Tradução dos versos acima

"Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado!
ai Deus, e u é?"

Na lírica galaico-portuguesa destacam-se:

Trovadores

Outros trovadores:

Não fica por aqui… vai continuar com uma 3ª e 4ª parte

Este título de vivências, agora não condiz, mas como foi uma vivência a origem e estou na continuação do post… aqui fica para quem inicia a leitura … a devida correcção.

clik aqui para abrir o Link da canção

Vivências (1)

Recuar no tempo … para me recordar da lenga lenga de cordel e da cançoneta a condizer, tenho de recuar no tempo, 50 anos… estou com 5 anos de idade o meu irmão tem 3, estamos no mercado abastecedor de frescos da cidade de Évora, entalado entre o Jardim Público e o Regimento de Artilharia Nº 3, hoje um pólo da Universidade. Junto ao grande portão verde, que dá entrada para a zona das bancas das hortaliças e dos talhos, está a banca dos bolos… aqueles bolos de mel que minha mãe compra e leva para casa (passaram 50 anos e é como se fosse o momento, tal é o cheiro e o sabor do bolo… a memória é um espectáculo), ao lado está uma mulher vendendo brinquedos, automóveis feitos em lata, pombinhas de madeira com umas rodinhas que quando puxadas dá ás asas e umas grandes camionetas de madeira… coisa certa, ninguém dali arreda pé, enquanto duas camionetas não vierem debaixo dos braços dos manos…dito e feito…mas fiquei embasbacado…com o casal que estava junto ao portão, onde todos tinham de passar… um homem vestido de negro, camisa, casaco e até um grande chapéu era preto, estava sentado num banco, de perna trocada, com uma viola nos braços, a seu lado, uma mulher forte, grande, de cara vermelha e cabelo comprido, encaracolado e ruivo, vestia um vestido branco sarapintado de flores azuis e amarelas a voz dela era rouca… contava a história de uma moça que se tinha encantado por um homem, ela tinha fugido de casa, mas o pai (dela) foi ao seu encontro e ela e o seu amor morrem de morte-matada. Depois a Mulher cantou uma lenga lenga dessa história enquanto era acompanhada pelo homem que ia dedilhando a viola…no fim vinha ter com o povo que ficava ouvindo a cantadeira e vendia uns folhetos com algumas ilustrações e as quadras que tinha cantado… eu gostei daquilo… mas das muitas vezes que voltei ao mercado, nunca mais ouvi cantar as lengas lengas… um dia, já casado e na feira de Barcelos, voltei a encontrar uma cantadeira com um tocador, desta vez de concertina, mas aí, já sabia na presença do que estava… e até me dei ao luxo de explicar à Rosa, como eram os versos, que iam das quadras ás decimas… e que aquilo era o que se chama literatura de cordel… o porquê do nome…e quais as raízes das cantilenas… (um dias destes escrevo aqui sobre as “cantigas de amor e mal dizer” em que um dos expoentes, foi o nosso rei D. Dinis (cantigas Provençais).

Porque recuei até á minha infância… por me recordar das compras no mercado, dos brinquedos, das gentes daquele tempo… das vizinhas da casa dos meus pais… dos amiguinhos da rua, do primeiro dia de escola… até, do meu primeiro cão, um Setter de nome ‘Dike’…Porquê? Porque uma amiga ( Dilma Damasceno ) tem um espaço (http://dd-vivendo-e-aprendendo.spaces.live.com/) e de muito escrever e se esforçar para dar conhecimento a alguns gentios, do abundante cancioneiro ‘cordelista’ e de seus autores e ao mandar por e-mail, uma parte falada (cantada) dessa riqueza folclórica da sua Região … aí me vieram as recordações da infância… onde nas feiras, eu encontrava essas cantadeiras descrevendo as aventuras ou desventuras de alguém. (Nada mais disto se encontra por aqui) … e por um Pernambucano me dar de presente um livrinho dessa literatura de cordel de um tal J.Borges, nascido em 1935, Pernambucano, do município de Bezerros, que na sua carreira de Repentista já criou mais de 400 cordeis, sendo ele próprio o ilustrador com xilogravuras por si criadas e como o próprio diz:

 

Aos doze anos eu era
Forte, esperto e nutrido.
Vinha do sítio de Piroca
muito alegre e divertido
vender cestos e balaios
que eu mesmo havia tecido.

 

Passava os dias na feira
e à tarde regressava
levando umas panelas
que minha mãe me comprava
e bebendo água salgada
nas cacimbas onde passava
………..
No bolso eu já levava
Um folheto do Pavão
Comprado a João de Lima
Por pouco mais de um tostão
Que ao chegar em casa
Era a minha diversão.

 

Deita-me numa rede
lia o folheto e relia
e ainda sobrava tempo
para ir a olhar a Fia
minha primeira namorada
que muito bem me queria.
………….
Em dez meses aprendi
ler, escrever e contar
No melhor da aprendizagem
Fui obrigado a parar.
A escola acabou-se
Não pude mais estudar.

http://www.pousadapeter.com.br/indexfotos_xilogravura_f._borges_xilogravuras_cordel_pernambuco_cordeis_nordeste_brasil.htm

A literatura de cordel é um tipo de poesia popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome. São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola.

 ORIGEM DA CANTORIA, CANTADOR E DA VIOLA

A nossa poesia popular floresceu em Provença, sul da Franca, no Século XI, através dos trovadores Regreis e Jograis. Na Espanha a poesia floresceu através dos palacianos. Foi em Homero, maior dos rapsodos, cantando as façanhas de Ulisses diante de Circe e do gigante Polifemo, que Virgílio encontrou a fonte inspiradora para a realização de sua obra monumental.

Eram os trovadores da Provença, que levaram a alegria aos senhores feudais, enclausurados nos seus castelos de guerra. Enfim, foi Dom Diniz, maior monarca da Dinastia de Borgonha, que se proclamou discípulo dos provinciais, em suas cantigas de amigo e de amor. Todavia, ninguém melhor do que o poeta António Ferreira, de Portugal, falou de sua grandeza, quando disse: Regeu, edificou, lavrou, venceu, honrou as musas, poetou e leu".

A fusão da poesia local portuguesa com a poesia dos Trovadores Jograis de Provença fez surgir novas formas poéticas de linguagem de seus famosos poetas: João Soares de Paiva, Paio Soares de Traveiros e outros. "Mas, coube ao Brasil o privilégio do aparecimento do legítimo cantador de Viola, com Gregório de Matos Guerra, que deixava a Universidade de Coimbra fazendo verso* de protesto a direcção daquele estabelecimento de ensino. Nascido na Bahia, no Sec. XVII e o primeiro doutor brasileiro. Seguido pelo Padre Domingos caldas Barbosa.

As Decimas… muito usadas no Alentejo pelas gentes trabalhadoras do campo

Mote

Homens de alta competência
Que se empregam na leitura
Vêm mostrar a ciência
No novo Celeiro da Cultura

I
Vejo a arte definida
Nos faz gozar o sofrer
Mas na forma de escrever
É o bem que tem na vida
Há muita gente instruída
Até no ler há diferença
Com saber e resistência
Mostram grande habilidade
Fazem ver à sociedade
Homens de alta competência

II
Com a regra da aprovação
Mostram a boa vontade
Esclarecendo a verdade
Sem ponto de interrupção
Seja ruim, seja bom
Sempre mostram figura
Esta é a água mais pura
Tanta a gente vai beber
Nesta casa esclarecer
Que se emprega na leitura

III
Pode ser um bom professor
Até pode ser engenheiro
Já tenha corrido o estrangeiro
Só eu sou o mais inferior
Não deixo de dar valor
Ouvir falar consciência
Tudo tem a preferência
De vir a este lugar
Para o dote mostrar
Vêm mostrar a ciência.

IV
Com boa formação
Vem gente de qualquer lado
Para tudo ser respeitado
Tudo ouve essa lição
Com a melhor atenção
Digo em qualquer procura
Sendo esta a maior censura
Para qualquer entender
Aberto para toda a gente ver
No novo Celeiro da Cultura.

Sebastião Perdigão,
Abril 2000

No começo deste século, a figura tradicional do cantador era a do indivíduo de inteligência aguda, escassas condições financeiras, muitas vezes analfabetos ou pouco letrados, cantando de feira em feira seus versos ‘ geniais que garantiam a própria subsistência’. E que improvisava ao som da viola.

Tambem se encontra no fado…

O fado da Severa

Letra e Música: Sousa do Casacão – 184?

Chorai, fadistas, chorai,
Que uma fadista morreu,
Hoje mesmo faz um ano
Que a Severa faleceu.

Morreu, já faz hoje um ano,
Das fadistas a rainha,
Com ela o fado perdeu,
O gosto que o fado tinha.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe sofreu,
Quando lhe foram dizer:
Tua Severa morreu!

Corre à sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
Adeus oh! minha Severa,
Boa sorte Deus te dê!

Lá nesse reino celeste
Com tua banza na mão,
Farás dos anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.

Até o próprio S. Pedro,
À porta do céu sentado,
Ao ver entrar a Severa
Bateu e cantou o fado.

Ponde nos braços da banza
Um sinal de negro fumo
Que diga por toda a parte:
O fado perdeu seu rumo.

Chorai, fadistas, chorai,
Que a Severa se finou,
O gosto que tinha o fado,
Tudo com ela acabou.

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/fado_falado.wma

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/fado_da_cigana.wma

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/fado_da_tendinha.wma

e do Brasil

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/mu…

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/rei_do_gatilho.wma

A saga vai continuar…….. já que arregacei as mangas….

Os Amigos

Os amigos do acaso
São como as folhas de outono
Espalham-se rápido ao vento.
 
Os amigos de boêmia
São feito fogo de palha
E arduamente nos custam
Os olhos da cara.
 
Os amigos da onça
São parentes de "Judas"
Somos santos na presença
Crucificados na ausência.
 
Os amigos de trabalho
Se não houver nenhum tapete
Nos aplaudem , vão ao delírio
Em troca, pagamos o ingresso.
 
Os amigos interesseiros
Nos contatam diariamente
Mas, só pedem favores e favores
Esquecem até de dar "bom dia".
 
Mas, os amigos verdadeiros
Permanecem ao nosso lado
Em qualquer tempo…
De alguma maneira presente.
 
Os amigos do coração
São fiéis, acendendo o sentido da vida
Não importa a distância…
Sempre dão um toque de magia.
 
Já não sei de onde tirei isto ou quem me mandou , mas alguém foi.
 

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