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Estas, são também as minhas palavras, com subscrição total. Que em alguns momentos, da minha vida, foi uma realidade. Uma vivência de dia a dia… como esquecer o pôr do Sol, o cheiro da terra molhada, o espectáculo depois de um dilúvio, o ‘dar’ aos glúteos na mata, quando do toca a ‘fodidos’, do ‘não há-de ser nada, se for que seja menina de olhos azuis’, o gelo na espinha quando do ‘apanhar’ das minas, do cancioneiro, ou nas bebedeiras infernais e monumentais, dos jogos de ‘lerpa’, da barraquinha de bambu com lama (matope) coberta de capim, onde se dormia e se tinham grandes discussões sobre o conceito de Édipo e outras ideias filosóficas e à falta de melhor se executavam apostas sobre a cor dos olhos, dos ratos, que nos vinham visitar durante a noite, o dormir enroscado com aquela companheira de mais de 24 meses, fria, incómoda, pesada, impessoal, mas que nos dava a sensação de segurança do seu aconchego e rezava-mos para que ao ser chamada, o seu serviço fosse perfeito, sem falhas, quando da necessidade do mesmo. Muitas, muitas mais recordações me percorrem a mente à velocidade de uma mecha. Mas vamos á entrevista, que aqui reproduzo na integra e sem comentários e saída no Jornal ‘Primeiro de Janeiro’ de 04 de Novembro de 2006.

A foto acima é uma ‘Polaroid’, que um camarada me tirou, certo dia, em certa picada…

http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?op=artigo&sec=b6d767d2f8ed5d21a44b0e5886680cb9&subsec=&id=255a7c55ac8e523909ba068cf769fcf7

João Carlos Sarabando, autor de «As hienas também choram», em entrevista…

“As guerras são um negócio”
No tempo em que Portugal afirmava ao mundo um orgulho solitário nas possessões ultramarinas, contrariando o impulso internacional, um punhado de meninos construiu a sua história no mato de Moçambique. «As hienas também choram» canta um hino a esses soldados desconhecidos.
Carla Teixeira
Um milhão e meio de mobilizados, nove mil mortos, 30 mil feridos graves e 140 mil com danos psicológicos graves ou mesmo irreversíveis. Houve mutilados na explosão de minas, vítimas de disparo de metralhadoras… Tudo o que pode acontecer numa guerra aconteceu na Guerra Colonial. E houve também os que regressaram a casa em caixões, e os que nunca regressaram…
Mas o caixão normalmente regressava. Sem ninguém lá dentro.
Diante desse cenário trágico, que experimentou no mato de Moçambique, que sentido faz escrever um livro que recorda esses anos e esse sofrimento?
O livro foi escrito precisamente por isso. Porque nesse universo andou um soldado desconhecido, que representa milhares e milhares de portugueses esquecidos, ou que são lembrados quase como um incómodo. Como sempre tive um certo fascínio por contar histórias de pessoas sem história, este livro vai ao encontro dessa quase missão. Por outro lado, a forma como tenho visto abordado esse passado recente da nossa história, numa visão fria, numérica e estatística da guerra, que todas as guerras têm, não me agrada. E como participei nela, entre 1972 e 1974 – altura interessante, porque apanhei o 25 de Abril –, reparei que, apesar de tudo, nessa guerra, como nas outras, houve os que ganharam muitos galões. Os soldados de pé descalço, a carne para canhão, essa nunca aparece. A história é sempre contada numa base estatística ou, em alternativa, de fora para dentro. Este livro tenta inverter esse universo, e contar a história de dentro para fora. É uma colectânea de histórias em que as personagens são todas protagonistas. Toda a linguagem crua e afrontosa que aparece no livro, que tem o estilo de um guião de cinema, sem grandes reflexões do narrador, é um abrir da alma desses homens, e tenta retratar uma parte da nossa história que teve momentos de grande miséria, mas também de grande dignidade. É um rasgar de baionetas, no reunir dessa história que encontramos em filmes e relatos desse tempo. Por outro lado, o nosso grupo teve a felicidade de viver momentos interessantes. Se a nossa estadia em Moçambique tivesse tido lugar uns anos antes não teria tido metade da riqueza que teve. Foi numa altura em que iam daqui metade brancos, e lá se juntava ao exército outra metade de pretos – e não há que ter medo das palavras (este livro é dedicado a um soldado preto que foi morto acidentalmente pelo seu melhor amigo, que era branco) – e toda a conflitualidade que surgiu, por passarmos 24 horas por dia com alguém de outra cor – porque íamos para lá cheios de preconceitos, e chegámos à conclusão que todos somos racistas, embora haja muitos graus de racismo –, enriqueceu a nossa experiência. Apanhámos uma conjuntura política complicada na metrópole, éramos uma companhia da tropa-macaca, que era aquela tropa que estava aquartelada num certo sítio, que não tinha protagonismo, e que ficava sempre em pavor quando ouvia um helicóptero, porque sabia que vinham os “amarelos” (oficiais) chatear ou havia mortos ou feridos que era preciso evacuar. O helicóptero era sempre um fantasma…
Mas falou em sorte. É possível ter sorte quando se está numa guerra?
Apanhámos o 25 de Abril, e aí tivemos sorte. Porque apesar de os “xicos” (militares de carreira) serem um pouco maltratados, e no livro também são, tínhamos no comando do nosso batalhão um homem impecável, que tinha contactos com o Movimento das Forças Armadas, e que soube, como os guerrilheiros da FRELIMO souberam, que algo estava a esboçar-se. Era o Golpe das Caldas. E então tivemos a iniciativa de no mato fazermos um acordo de cessar-fogo com um grupo de guerrilheiros da zona. Foi uma espécie de pacto de não-agressão, que foi respeitado por ambas as partes. O Golpe das Caldas falhou, mas ambas as partes mantiveram o acordo. Esse pacto chegou ao conhecimento das altas esferas, o Comando em Tete, e a nossa companhia esteve para ser processada… Nessa altura venho de raspão à metrópole, e estava aqui desenfiado (tínhamos direito a um mês de férias, mas normalmente vínhamos uns dias antes, com passaportes falsos. Era tudo muito bem estudado, para conseguirmos passar no aeroporto e na apresentação no quartel-general sem sermos descobertos). Passei o 25 de Abril e o 1 de Maio no Porto, e regressei dias depois. Por outro lado, a nossa experiência foi enriquecedora, porque devido a esse contacto, já na fase pós-25 de Abril e da independência de Moçambique houve um reagrupar das forças da FRELIMO que estavam no mato, que eram enviadas para os grandes centros – Beira e Lourenço Marques –, e que na nossa zona foi feito no nosso quartel, por estarmos envolvidos nesse pacto. Foi extremamente enriquecedor. Conhecemos homens e mulheres maravilhosos, alguns que chegaram a ser ministros… Para os nossos soldados foi espantoso ver esses homens, que não bebiam uma cerveja ou não comiam num prato há seis ou sete anos. Não gosto de chamar a esta guerra colonial, porque isso pressupõe saber quem ganhou, quem perdeu, quantos morreram e quantos estropiados houve. Foi uma guerra de afectos. Caímos lá como meninos, à procura de homens, e foram esses meninos que ganharam essa guerra de afectos.
Daí a referência ao riso das hienas, no título do livro?
O título surgiu de uma noitada de conversa com um régulo, em que ele falou de como era a sua terra antes da guerra, de como as hienas antes riam e agora choravam e de como esperava que voltassem a rir. Há muitas referências à ambiência e ao universo com que esses meninos foram confrontados, para voltarem da guerra como homens, no sentido de voltarem mais enriquecidos por dentro. E foi essa guerra de afectos que eles venceram.
A propósito de afectos… Combater em Moçambique, num país que não era o seu, embora fizesse parte do Portugal da altura, abriu espaço ao surgimento de afecto pela terra e pela sua gente?
Fiquei muito mais fascinado pela nação do que pelo país. Portugal era um país de muitas nações, e todo esse imaginário, de tradições e conceitos, foi enriquecedor. Há um episódio curioso que retrata isto: numa noite foi-nos dito que tínhamos de acampar num cemitério. Aliás, só soubemos que era um cemitério quando já estávamos aquartelados. Numa zona muito seca, de repente vimos um conjunto de mangueiras (árvores de mangas), muito frescas, e não houve que enganar: ficámos ali. Notámos que os africanos começaram a “encolher-se” e disseram ao alferes que na metrópole não fariam tal coisa. Durante a noite vimos uma espécie de múmias penduradas nas árvores, e uma enorme cobra passou por cima do alferes que deu a ordem. Os locais viram isso como um aviso. Esse conflito mostrou-nos um país e um universo diferente. Mas estivemos acantonados 27 meses no mesmo sítio. Não fomos a Lourenço Marques ou Nampula, e passámos na Beira de raspão. Não podemos ter a ilusão de que conhecemos Moçambique. Não há dúvida de que se cria uma nostalgia pelo que se viveu lá, e também pelo sentido de camaradagem, porque quando duas pessoas se encontram em momentos de autêntica sobrevivência, essa camaradagem nunca mais desaparece. E o que todos queremos para Moçambique, para Angola e para a Guiné é que sejam criados mecanismos de paz e desenvolvimento…
Alguns psicólogos consideram que voltar ao palco da guerra ajuda a expiar memórias traumáticas. Este é o seu regresso a Moçambique? Precisou disso?
Não. Este livro não é uma catarse. Quem venceu a guerra dos afectos não precisa dela. Naturalmente há laços afectivos que nos unem a Moçambique. Estivemos num sítio que nos marcou, e é natural que sonhemos lá voltar, mas eu recuso o regresso dessa maneira. Da mesma forma que agradeço a Fátima ter voltado de lá inteiro, mas não tenho de ir rezar ao santuário. A consciência da guerra nasceu lá, não no mundo abstracto que levámos daqui. É natural que as pessoas que tiveram marcas na carne tenham tido uma relação dolorosa com Moçambique na altura, que hoje poderá ser de saudosismo. Mas os soldados que quero cantar não precisam expiar memórias. Podem olhar nos olhos do passado.
O livro é para os soldados que lá estiveram? É só para homens?
Não. O universo da guerra mexeu com milhares de homens e milhares de mulheres: mães, esposas, namoradas ou madrinhas de guerra. Há protagonistas em ambos os lados, cá e lá, e «As hienas também choram» deve ser entendido como um livro para esses combatentes. Por silêncio para os que ficaram, e por omissão para os que foram, estes combatentes têm sido ignorados pelo poder instituído. Neste livro nada se esconde. Um homem deixado à solta naquele ambiente, se lhe for dada guita transforma-se num animal. E no relacionamento com as mulheres (só havia mulheres e velhos nos aldeamentos), foi necessário criar regras para gerir esse aspecto. Nos casamentos celebrados com mulheres locais, os soldados tinham de pagar um dote, e quando a mulher era virgem o dote era mais elevado. Nós não tínhamos condições para o pagar de uma vez, e então instituiu-se o pagamento a prestações. Enquanto o casamento funcionava não havia problemas, mas quando dava para o torto – e dava normalmente –, os homens queriam deixar de pagar. E depois deixavam de visitar a mulher, e vinha o régulo com a família toda pôr-se à frente do aquartelamento… Uma das regras que criámos foi a de descontar todos os meses dos ordenados desses homens a parcela devida às suas mulheres.
Há especialistas da Lusofonia que consideram que o futuro de Portugal está em África e que o papel da Comunidade de Países de Língua Portuguesa se tem esvaziado de sentido, não cumprindo os desígnios da sua criação…
O problema da CPLP é comum a outras instituições: esbanjam recursos nas alcatifas dos gabinetes e ao serviço de pessoas que conhecem a realidade de forma teórica. Aquela gente não precisa de computadores. Se calhar precisa de lápis e papel, e de alguém no terreno. Não precisa de alguém num gabinete a milhares de quilómetros, preocupado em ultrapassar etapas de desenvolvimento. Muitas vezes esquece-se a infra-estrutura…
E dá-se passos maiores do que as pernas?
Penso que sim, porque essas pessoas têm carência de coisas fundamentais. A CPLP tem a ver com a afirmação da civilização portuguesa, e para isso é preciso gente que se entregue à causa. Não é como os que vão para a Bósnia ou para o Kosovo, que vão ganhar centenas de contos e levam telefones com satélite para falarem todos os dias com a família. Esses soldados, aos olhos dos ex-combatentes, são mercenários arregimentados. É uma saída profissional, comissões de seis meses que a nós, que andamos na guerra dos afectos, nos causa repulsa. O guerrilheiro sobrevive com uma malga de arroz, enquanto esses soldados vão carregados com as meias, a Coca-Cola e os maços de cigarros. E essas instituições começam sempre com uma estrutura pesada. É uma guerra perdida. Têm de usar a estratégia do guerrilheiro, e criar uma estrutura leve. E estarem mais concentrados nos riscos que correm do que em saber quando vão dar entrevistas…

Ouvir a canção de fundo deste post

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