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O Cordel Alentejano… também existe?…
Mesmo antes de ir explorar a Poesia Alentejana não poderei deixar de anotar as decimas seguintes e a resposta, não há banda do agasalho, mas a um apontamento, que as referidas décimas citam, ‘Em delírios pipianos ‘ e que os leitores deste meu ‘post’ poderão seguir clicando no link indicado.
Décimas do bando do agasalho

Mesmo não tendo um tostão,
De amigos não abdico.
Ter amigos é ser rico,
Diz o povo e com razão.

Foi a Costa do Castelo,
Que vela a minha cidade,
Que tornou realidade,
Este encontro tão singelo,
Que aqui a todos revelo:
Veio um companheirão,
Empenhado até mais não.
Que apesar do mar revolto,
Diz e bem, Eu Vou Mas Volto,
Mesmo não tendo um tostão.

A Naundinha também veio.
Rotice Memorial
Do Convento
ancestral,
Um ou outro galanteio
Com caral…das pelo meio,
Também houve mexerico,
E conversas de penico
Em delírios pipianos.
Eu sou como a Ana Anes,
De amigos não abdico.

A golpes d’O Bisturi
Lá cortámos na casaca
De muita gente velhaca
Que conhecemos para aí.
Não ficámos por aqui.
Pico pico saranico,
Ninguém nos calava o bico.
E o palhaço agasalhado?
O nabo e o abichanado?
Ter amigos é ser rico.

Foi muito animado sim,
Com grande camaradagem.
Princípio duma viagem
Que espero não tenha fim.
E não falo só por mim…
Já é vosso o coração
Deste humilde Cidadão
Do Mundo
. Viva a Amizade.
Viva a Solidariedade.
Diz o povo e com razão.

João Fernando

In http://cidadaodomundo.weblog.com.pt/arquivo/027515.html

Em resposta aos ‘Em delírios pipianos’ acima indicados (aqui fica o link, não pelo interesse geral mas para entendimento da resposta).

Décimas de refutação
já num blogue o meu pipi?
de um pipi, que caso estranho…
eu vou ali e já venho:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.
é forçoso que eu desminta
com vigor essa atoarda:
por muito usar a espingarda
e por gastar muita tinta,
não se espere que consinta
na falsidade que li
e me ofende o pedigree:
garanto que não fui eu
o brejeiro que meteu
já num blogue o meu pipi.
quer-se o pipi bem guardado
para uso pessoal:
nestas coisas afinal
deve ser-se recatado.
demais, quem seja versado
nos tiques do meu engenho,
das prosódias que eu amanho
já saberia de cor
que eu faria bem melhor
de um pipi… que caso estranho!
nem da lira tiraria
maior glória do instrumento
quando ao pipi acrescento
a minha morfologia.
e decerto não cabia
num blogue assim o tamanho
do lenho ardendo no lanho.
pipilar pipis na liça
muito enguiça e pouco atiça…
eu vou ali e já venho…
o que é de césar, quem jogue
assim a césar o dê
e se entender o porquê
deixe então que eu desafogue:
que não pus pipi no blogue
nem pus blogue no pipi:
ri melhor quem no fim ri
por redondilha ou quinamos,
ou por música de orgasmo:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.
Vasco Graça Moura

in http://abrupto.blogspot.com/2003_06_01_abrupto_archive.html

Sem dúvida …estamos na presença de literatura de cordel….

O cante, Poesia e Poetas contemporâneos do Alentejo

O cante alentejano tem o sentido do amor, da saudade e da tristeza, embora associados também a outros motivos. Das 206 modas do Cancioneiro Alentejano, 114 falam do Amor. Por exemplo as modas “Lindo Amor”, “Ao romper da bela aurora” e “Ribeira vai cheia”, etc.

Das restantes 92, a maior parte canta a saudade. Por exemplo “O Meu Baleizão”, “As cobrinhas de água”, “Já morreu quem me lavava”, etc. 6 modas cantam a morte e 17 cantam a tristeza. Cantam a morte as modas “Lindo Amor”, “Solidão” e “Já morreu quem me lavava”. Cantam o sofrimento as modas “Anda cá senta-te aqui”, “Ó Maria Rita” e “Suspiros ais e tormentos”, etc.

Donde veio o cante alentejano – A hipótese mais significativa é a que nos aponta a vila de Serpa como terra onde se organizou o cante Alentejano, pelo seguinte. As escolas de polifonia clássica do século XV, em Évora foram frequentadas por alguns frades da Serra de Ossa. Alguns destes mesmos frades foram mandados para Serpa onde fundaram o convento dos paulistas e Escolas de Cante Popular. Deve ter sido dessas escolas que saiu o cantem alentejano. O cante alentejano tem princípio, meio e fim, pelo que somos levados a crer que os autores das modas alentejanas tenham pessoas dotadas de conhecimentos musicais suficientes para as inventar. Estas escolas de canto popular, fundadas pelos frades paulistas da Serra de Ossa, teriam a sua origem aí pelos fins do século XV, na transição do Milénio Vocal para o Renascimento.

Assim definido, o cante alentejano representa a cultura popular tradicional do povo do Alto e Baixo Alentejo, de um extraordinário, com a sua identidade própria, as suas características específicas e a sua peculiar interpretação. Esta cultura mergulha as suas raízes no sistema musical medievo, numa perfeita simbiose de modas e de tons, fruto da evolução da música no período renascentista. Esta cultura traduz a perfeita imagem do povo alentejano, no seu quotidiano, durante séculos, e que se mantêm viva, em toda a sua beleza sentimental e nostálgica, que embalou, a sua gente, a fez trabalhar, cantar, chorar, sofrer rezar e morrer, numa epopeia bem digna da pena de um novo ainda que rústico épico.

 A Vila Alentejana que deu o nome à Cuba do Galego “Fidel”

Cristóvão Colom – Salvador Fernandes Zarco, a quem El-Rei Dom João II incumbira de tão árdua e misteriosa missão: a alteração das coordenadas da partilha do mundo, pelo Tratado de Tordesilhas, nasceu na casa grande  em Cuba – Vila Alva, filho de D. Fernando – Duque de Viseu e de Beja e D. Isabel Gonçalves Zarco (Câmara).  

Pode ler um apontamento maior em :

http://webintercam.spaces.live.com/blog/cns!185B8A0F5289E719!1264.entry

Cantares de alguns Grupos Alentejanos

(Pode ouvir as canções clicando nos seus nomes)

Grupo RONDA DOS QUATRO CAMINHOS

Olha o Rouxinol com os Cantares de Évora

Grupo ADIAFA

"As Meninas da Ribeira do Sado"

"Ó Pavão"

Grupo CANTOS D’AURORA

"Dançando Pulirando"

Grupo CANTO MOÇO

"Não Chove No Alentejo"

"Chula Da Póvoa"

Grupo TRIGO LIMPO

"Então Porque Não"

"Eu Subi Ao Cerro"

Mais ‘Cante Alentejano

http://www.joraga.net/gruposcorais/pags/06tertuliaCANTOdoCANTE.htm

http://www.joraga.net/gruposcorais/tertuliaCCante/Planicie%20Alentejana1%20(Pedro-Luis).WAV

http://www.monsarazgrupocultural.com/musicas/monsarazvarandadoalqueva.mp3

Poesia e Poetas contemporâneos do Alentejo

«A palavra “romance”, que primitivamente significava a língua falada em Portugal até ao aparecimento do português proto-histórico, passou, depois, a designar história em verso, feita por autor desconhecido, e que o povo cantava nas suas actividades.
A hipótese de autoria colectiva, perfilhada por Garrett, está posta de parte. Só poderá falar-se de romances do povo, na medida em que ele os assimilou e modificou, acrescentando, suprimindo, adaptando e até interpolando, umas vezes consciente, outras inconscientemente.
(…)
Podemos considerar os romances poemas lendários com fundamento histórico, de forma épica ou épico-lirica, narrativa ou dramatizada.
Garrett admite duas espécies de histórias: o romance, que é todo narrativo, e a xácara, que é toda dramatizada. Mas muitas vezes coexistem o romance e a xácara. Então, chama-se romance-xácara, se predomina a fala do autor; e xácara-romance, se predomina a fala dos per­sonagens. Quando a história é triste, chama-se solau.
Entre nós, também se lhes chamou: rimances, romanças, trobos, trovas, motes ou simplesmente versos. Os romances religiosos de carácter laudatório também se chamam loas.
Os romances religiosos estão relacionados com a vida de Jesus, de Nossa Senhora e dos Santos. Os profanos evocam episódios da reconquista cristã aos Mouros, ou falam de amor e de dramas passionais, provocados pela infidelidade das esposas, na ausência dos maridos, e pelo perjúrio dos namorados, em vésperas de casamento.
A maior parte dos romances peninsulares teve o berço em Castela e nasceu dos Cantares da Gesta, na opinião de Carolina Michaelis. Daí irradiou para toda a Península, por via oral, através das migrações para guerras, trabalhos, feiras e festas. (…)»(*)

(*) Joaquim Alves Ferreira, in LITERATURA POPULAR

O CALOTEIRO

Senhor José, não me paga?
Que vergonha é a sua?
Desde que ferrou o cão,
Não passou mais nesta rua.
– É talvez por lhe dever
Ou por ter medo de si.
Quer que deixe de comer,
Pra pagar o que bebi?
– Trabalhe, seu mandrião,
Caloteiro de má raça:
Eu, quando compro a fazenda
Tenho de largar a massa.
Quer você, à minha custa,
Encher a pança de graça?
Não tem vergonha de ouvir
O que dizem quando passa?
Trabalhe, seu calaceiro,
Se quer ter algum valor:
Os calos são os anéis
Do homem trabalhador.
– Eu calos na mão não quero,
É canalha que arrenego;
Dispenso esses anéis
Que não dão nada no prego.
E é você que vem pregar
Moral, com esse jeitinho?
Foi você que me roubou,
Vendendo água por vinho.
Lembre-se, seu impostor,
Daquele velho rifão
Quem enganar um vendeiro
Tem cem anos de perdão

in ROMANCEIRO (I vol.) LITERATURA POPULAR

Entrevista ao Poeta da terra:

1 – Quem é o Poeta da terra?

Chamo-me Anastácio José de Deus, tenho 79 anos feitos a 10 de Fevereiro, e já estou reformado. Trabalhei 30 anos nas pedreiras em Pardais; era desbastador das pedras mármores e trabalhava com uma broca.

2 – O que é ser Poeta?

Poeta é um homem que sabe fazer poemas, cantigas ou décimas.

É preciso ter vocação e saber dizer o que lhe vai na alma.

3 – Com que idade começou a fazer poesia?

Comecei por volta dos 18 anos nos bailes.

4 – Frequentou a escola? Até que idade?

Frequentei a escola até à 3ª classe e fiz a 4ª já em adulto na tropa, na escola militar.

5 – A que dedica as suas poesias? Onde se inspira?

As minhas poesias falam sobre a política, sobre as pessoas, sobre a reinação, sobre o amor, festas, animais, sobre outras terras.

6– Gostava de ter um livro seu?

Gostava de ter um livro publicado e tenho um livro escrito por mim com todos os poemas que gosto de fazer.

7 – O que faz nos seus tempos livres?

Cuido da horta, cuido da esposa e limpo oliveiras.

8 – Que poema até hoje gostou mais de fazer? Porquê?

Gostei muito das décimas que dediquei á minha mula que teve durante 13 anos.

9 – É difícil escrever poesia? Quem o ensinou?

Para quem sabe não é difícil. Aprendi com todos que também sabiam dizer poesia.

10 – Onde costuma dizer os seus poemas e a quem?

Já participei em alguns encontros de Poetas, mesmo fora da região; quando era mais novo dizia os poemas entre os amigos na taberna, no trabalho e quando havia festas também dizia poesia a maioria décimas.

11- Onde se inspira para a sua poesia?

Na vida do dia-a-dia, no que acontece de importante, nas pessoas ou animais e quando estou descansado.

A foto acima é do poeta popular”Anastácio José de Deus”

Tradição dos Orvalhos (Aldeia do Concelho do Alandroal)

Em todo o Alentejo existem muitas pessoas que usam a poesia para se exprimir em muitas situações. Geralmente em grupos de amigos, à volta do petisco, acompanhado do bom copo de vinho que dá asas à inspiração. Por isso há mais homens do que mulheres a fazer poesia. A poesia popular alentejana deve ser divulgada e protegida. Umas das formas de poesia popular são as Décimas. As Décimas são versos ditos de cabeça e têm regras rígidas de rima:

– A primeira rima com o quarto e o quinto versos; o segundo com o terceiro; o sexto com o sétimo e o décimo; o oitavo com o nono.

 

POETAS POPULARES DO ALENTEJO

(Distrito de Évora)

AUGUSTO GARCIA TOUCINHO
Data de nascimento: 3 de Agosto de 1900
Fez poesia desde os 11 anos.

MOTE

O que nasce é para morrer
Seja qual for o vivente
Tudo tem princípio e fim
Nada vive eternamente.

Traz o destino marcado
O vivente quando nasce
Pois se nada cá findasse
Tudo vivia afrontado.
Estava o mundo amontoado
Até mais cá não poder caber
Nada se podia mover
E tudo vivia oprimido,
Está assim compreendido
“O que nasce é para morrer”.

Racionais e irracionais
E os vegetais reverdecendo
Tudo vai desaparecendo
Dando lugar a vir mais.
Estão então os minerais
No mesmo ser para sempre
É coisa que não se sente
Não se move nem se queixa,
O mais tudo o mundo deixa
“Seja qual for o vivente”

À morte não escapa nada
E a tudo mete medo
Todos mais tarde ou mais cedo
Fazem a mesma jornada.
Depois da vida acabada
Nada mais cá dá motim
A ordem do mundo é assim
E a morte não tem prudência,
Pelo destino da providencia
“Tudo tem princípio e fim”.

Depois de a vida acabar
Tudo se vai esvaindo
Mas novos seres vêm vindo
P´ró mundo não acabar.
Assim tem que continuar
Enquanto o mundo for existente
Sabe-se verdadeiramente
Que tudo morre de certeza,
Pela ordem da natureza
“Nada vive eternamente”.

MOTE

Temos os astros em guerra
Turvam-se as águas do mar
Quando é que reina na terra
A paz de que ouço falar.

Aonde é que isto irá parar
Com o decorrer dos tempos
Assim com tantos inventos
No que é que isto tudo irá dar.
Anda um conflito no ar
O que é que dali se espera
Cruzam a atmosfera
Os satélites e os foguetões,
Devido a tantas invenções
“Temos os astros em guerra”.

Estão os povos alarmados
Com o que se passa no mundo
Navios metidos no fundo
E marinheiros afogados.
Muitos barcos naufragados
Sem se poderem salvar
As pessoas que lá possam estar
Ali têm o seu fim,
Com estes sinistros assim
“Turvam-se as águas do mar”.

Não devia haver falsidade
Devia haver boa união
Quando é que os povos se entenderão
Como sendo uma irmandade?
Se houvesse só lealdade
Que muito bom que isso era
O povo pergunta e espera
Um futuro mais conveniente,
Sossego para toda a gente
“Quando é que reina na terra?”

Luta-se por todo o lado
Muitos querem o poleiro
Outros lutam pelo dinheiro
Está o mundo desgraçado.
O que é explorado
Também anda a lutar
Não se pode conformar
Com isso tal como está,
Pergunto eu quando virá
“A paz de que ouço falar”.

JOAQUINA MARIA DE JESUS GOMES

Natural: Santiago Maior
Residência: Alandroal
Data do nascimento: De uma Senhora não se diz
Faz poesia desde os 26 anos.

MOTE

O que tenho vai chegando
Para eu sobreviver
Mas também vivo ajudando
Quem não sabe agradecer.

Tanto que eu tenho trabalhado
Para juntar algum tostão
Eu não sou preguiçoso, não
Mas começo a ficar cansado
E um pouco desorientado
Algumas fomes vou matando
A quem por elas vai passando
Mas seja o que Deus quiser,
Pois para mim e para a minha mulher
“O que tenho vai chegando”.

Três filhas que eu tenho
A quem dedico muito amor
Mas também sinto a dor
Quando eu carrego o lenho.
Com razão e com empenho
De não as ver sofrer
Mas está-me a parecer
Que será triste o seu fim,
Então vou pensar em mim
“Para eu sobreviver”

Há-de ser o que Deus quiser
É só já o que me resta
Pois o mais nada presta
Digo eu para a minha mulher.
Faço sempre o que ela quer
E para se ir aguentando
Sempre e de vez em quando
Com tudo o que acontecer,
Eu cá estou para sofrer
“Mas também vivo ajudando”.

Tudo bate à minha porta
Qualquer uma criatura
Na minha casa há fartura
De tudo o que há na horta.
Mas a minha alma quase morta
Pouco já pode entender
Por tanto ver sofrer
Vivo desorientado,
Mas sempre tenho ajudado
“Quem não sabe agradecer”.

QUADRAS

Levantei-me um dia cedo
P´ró céu me pus a olhar
Verifiquei que tive medo
Do que estava a imaginar.

Quem morreu p´ra nos salvar
Não é nenhum segredo
E para observar
Levantei-me um dia cedo.

A minha imaginação
Era digna de contemplar
E com amor no coração
Pró céu me pus a olhar.

Era o juízo final
Debaixo de um arvoredo
O castigo de quem fez mal
Verifiquei que tive medo.

Eu vou tentar ser melhor
P´ra Deus não me castigar
Que me livre o Deus Senhor
Do que estava a imaginar.

QUADRAS

A vida contém beleza
E também sabedoria
Não dês largas à tristeza
P´ra viveres com alegria.

Tu nasceste p´ra viver
És fruto da natureza
Vive a vida com prazer
A vida contém beleza.

Como é belo saber viver
Ter o dom da poesia
De tudo um pouco aprender
E também sabedoria.

Olha!… Não chores, sorri
Tu também conténs pureza
Pensa um pouco em ti
Não dês largas à tristeza.

Mostra-me o teu sorriso
E a tua simpatia
È disso que eu preciso
P´ra viveres com alegria.

ANTÓNIO MANUEL MARCELINO
Alcunha: NECA
Natural: Monte das Herdades
Data do nascimento: 12 de Março de 1922
Fez poesia desde os 20 anos.

MOTE
O tempo vai-se passando
E a habilidade está perdida
Como um velho por ser, conheço
A história da minha vida.

Em mil nove dois e três
Fiz eu o primeiro anito
Sem saber fiz um palpito
Que era um homem português.
Foi isso que o destino fez
Que o destino tem o mando
Honradamente lutando
E enfrentando a canseira,
Mesmo que a gente assim não queira
“O tempo vai-se passando”

Toda a vida pobrezinho
O que para mim não é surpresa
Obedecendo à natureza
Não tenho outro caminho.
Em novo sai do ninho
Mas não sai desta lida
Se a pobreza é fingida
O que para mim não é verdade,
Mas obedecendo à idade
“E a habilidade está perdida”.

Trabalho por obrigação
Que já o meu pai assim fazia
Trabalhei noite e dia
Nos tempos que já lá vão.
Agora, assim, já não,
Nem sei a quem agradeço
O bem ou mal que mereço
Ou se um bem estou merecendo,
Mas como a vida vai correndo
“ Como um velho por ser, conheço”

Quantas vezes eu sozinho
E já no fim do serão
Ainda pego no garrafão
E lá vai mais um copinho.
Que eu sempre gostei de vinho
E dei valor à bebida
Esta já achada ou perdida
Quero que vá até ao fim,
Meus amigos é assim
“A história da minha vida”.

ANTÓNIO MANUEL SANTOS SERRA

Natural: Horta do Jarego de Cima
Data do Nascimento: 12 de Fevereiro de 1964
Residência: Alandroal
Faz poesia desde os 13 anos.

MOTE

Vou dizer o que ganhava
No tempo em que era pastor
O meu povial não prestava
Nem sequer tinha valor.

Ganhava sete galinhas
Cinco patos e três piruns
Ratos também tinha alguns
E também tinha uma burrinha.
Eu tinha uma cadelinha
Que nem p´rás sopas prestava
Era mouca e não ladrava
Sem dentes e já não comia,
Coitadinha já não via
“ Vou dizer o que ganhava”.

Eu ganhava muito pouco
Não chegava para comer
Vou então aqui dizer
Que eu tinha também um porco.
Ele já estava tarouco
Não tinha nenhum valor
Era um grande estupor
Era muito preguiçoso,
E eu tinha um gato guloso
“ No tempo em que era pastor”.

Tinha uma ovelha com ronha
Não prestava para criar
E também tinha a lavrar
No alqueive uma cegonha.
Tinha uma almofada sem fronha
Toda ela se rasgava
Eu às vezes até dava
Metade do meu povial
E eu ganhava muito mal
“ O meu povial não prestava”.

Eu tinha uma burra cega
Mouca que nem uma porta
Já tinha a cabeça torta
De eu lhe pregar com a régua.
Eu tinha ainda uma égua
Que m´a deu certo pastor
Fazia seja o que for
Para me desfazer da magana,
E rebentou-me a cabana
“ Nem sequer tinha valor”.

Nome: AUSENDA VICÊNCIA BALSANTE RIBEIRO
Natural: de Alandroal
Data do nascimento: (“ de uma Senhora nunca se diz”)
Residência: Alandroal
Faz poesia desde muito nova.
Tem obra publicada (MOMENTOS)

MOTE
Autenticas maravilhas
Existem no Alandroal
Suas aldeias e vilas
Suas gentes sem igual.

Na província Alentejana
Situa-se esta beleza
Prodígio da natureza
Em sua paisagem plana.
Alandroal vila ufana
Não tendo mar nem ilhas
Senão a distante milhas,
Deu-lhe Deus Nosso Senhor
“Autenticas maravilhas”.

Ser sua filha me apraz
Viver nesta calmaria
É bem que não trocaria
Por qualquer outra paz.
Sei que há anos atrás
A rainha de Portugal
Passeando a família real
Por montados e pomares
Reconheceu que puros ares
“Existem no Alandroal”

Julgam-no concelho pobre
Mas por vezes a pobreza
É mais rica que a riqueza
Quando não se é rico mas nobre.
Quem o visitar descobre
Mentiras, vamos bani-las
Dão-lhes todo esse valor,
Tornando-o concelho mor
“Suas aldeias e vilas”

Não há no país inteiro
Um jeito de bem receber
Como ele o sabe fazer
Seja filho ou forasteiro.
Ele é sempre hospitaleiro
Terra minha, Alandroal
É um dom de Portugal
E mostram bem sua valia,
No trato e na simpatia
“Suas gentes sem igual”.

SENTIMENTO

Ser mãe é ser diferente,
É sentir que há outra vida
Dentro da vida da gente.

Alegria jamais sentida,
Tão bom é o que se sente
Nesta experiência vivida!

Germinar de um novo ente;
O nosso “eu” revivido
Reflexo da própria mente.

Um filho de nós nascido,
Gerado no nosso ventre
Há lá algo mais querido?!…

SONHO COLORIDO

Se eu fosse um pintor
Pintava o ódio da cor do amor.
Pintava a fome da cor da abundância.
Pintava a tristeza da cor da alegria.
Pintava a severidade da cor da tolerância.
Pintava a mentira da cor da verdade.
Pintava a dor da cor do alívio.
Pintava a desventura da cor da felicidade.
Pintava o vício da cor da virtude.
Pintava o egoísmo da cor da nobreza.
Pintava a doença da cor da saúde.
Pintava a ignorância da cor da sabedoria.
Pintava os políticos da cor do acordo.
Pintava a guerra da cor da harmonia.
Se eu fosse um pintor…
Pintava o Mundo da cor do Amor!

JOSÉ ANTÓNIO PAIS

Natural de Hortinhas
Data de nascimento: 5 de Outubro de 1928

MOTE

Quando eu era solteiro estava
Na taberna a toda a hora
Nunca a minha mãe ralhava
Como a mulher ralha agora.

Creio que tu ainda não vistes
Que não sou alcoolizado
É para passar um bocado
Esquecer-me das horas tristes.
Ainda não desististes
De veres se me “desmaginava”
Cada vez mais avivava
E continua a avivar,
Neste ditoso lugar
“Quando eu era solteiro estava”

Quando tu mais vás ralhando
Pior para ti vai sendo
Sempre me lá vou entretendo
E entretenho-me de vez em quando.
Eu vou para lá em calhando
Seja logo ou seja agora
Com muita ou pouca demora
Isso aí já é diferente,
Sou visto por toda a gente
“Na taberna a toda a hora”.

Se eu andasse a trabalhar
E houvesse um dia feriado
Logo lá estava pregado
Na taberna a petiscar.
Ninguém me mandava chamar
O tempo todo lá passava
Sabiam que eu lá estava
Mas sabiam que estava bem
Se não ofendesse ninguém
“Nunca a minha mãe ralhava”.

O tempo da mocidade
Que é tão lindo de passar
Todos o queremos deixar
Em chegando a certa idade.
Até que um dia mais tarde
Vimos que o que é bom vai-se embora
Mas é já tarde essa hora
Reparem bem no que digo,
Ninguém ralhava comigo
“Como a mulher ralha agora”.

MOTE

Eu ontem apanhei um tordo
Assei-o, soube-me bem
Nunca vi pássaro mais gordo
Que o que a tua mulher tem.

Vilas, cidades e aldeias
Potes, tarefas e talhas
Corvos, milhanos e gralhas
Piscos, calhandras e tordeias.
Milhafres e águias feias
Há p´rá í pássaros a rodo
Até gaivotas no lodo
Há p´rá í cada bandada,
Por falar em passarada
“Eu ontem apanhei um tordo”

Isto é estar-me a gabar
Que sou grande caçador
Sempre dei grande valor
Ver os pássaros a voar.
Faço gosto em lhe atirar
Nem que venha um em cada cem
De vez em quando algum lá vem
Pendurar-se no ganchinho,
E muito bem temperadinho
“Assei-o, soube-me bem”

Sabem que há pássaros no ar
E também há pássaros no chão
Até há pássaros que estão
Escondidos para não se lhes tocar.
Mais difíceis de apanhar
Que os peixes com o engodo
Dão cabo do comer todo
Deixam tudo escangalhado,
Depois de bem depenado
“Nunca vi pássaro mais gordo”.

Às vezes ponho-me a pensar
O que foi feito da passarada
Via-se cada bandada
Hoje custa-se a encontrar.
Mesmo sem ninguém os matar
Vê-se um aqui outro além
Será das químicas também
Isto em mim é um “palpito”
Nunca vi pássaro mais bonito
“Que o que a tua mulher tem”

Termino esta Saga com um poema de um dos nossos maiores poetas ‘José Régio’ ele também um apaixonado pelo Alentejo e pelas suas gentes.

Fado dos Pobres

Aquela antiga beleza
Que vem descendo o passeio
Com seu ar de velha Alteza,
Seu velho folho de cassa
No peitilho de entremeio,
Diante duma vidraça,
Das tais que ofuscam a gente,
Pára a sonhar longamente…,
E ao voltar-se, de repente,
Estende a mão a quem passa!

Aquela rapariguinha,
Com olhos de malfadada,
Que ao declinar da tardinha
Vai, ao sabor do primeiro,
De canto em beco levada,
Ganha, assim, algum dinheiro
De que faz entrega à mãe,
Que ainda o ganha, também,
Se lhe aparece com quem,
No seu giro aventureiro…

Aquela velha do gato
Põe um quico na cabeça,
Roja um cambado sapato
De fivela desatada
No qual, às vezes, tropeça,
E em seda roxa estafada,
A saia em que anda metida
A sua carne sem vida
Nem parece andar vestida,
Parece ir dependurada…

Aqueles velhos dementes,
Qualquer um octogenário,
Quer ao fim da tarde são rentes,
Se é que o não são todo o dia,
Nalgum jardim solitário,
Vivem tão sem companhia
Que não têm na pensão
Em cujos baixos estão
Nem quem lhes pregue um botão
Nem quem lhes dê um bom-dia…

Aquele frágil menino
Que guia o cego que arranca
Do seu roufenho violino
Ganidos do triste fado
Tem um rubor na tez branca,
Se atira um verso guinchado,
Que diz que o podre do cego
Vai perder esse aconchego,
Mai-la rabeca esse emprego,
Mai-lo fado um seu fadado…

Aquele velho que ostenta
Madeixas sobre as orelhas
Ou sobre a gola sebenta
E a unha grande saída
Das botas podres de velhas
— Foi honrado toda a vida,
Tem a mulher entrevada,
Tem seis filhos, não tem nada,
Trabalhou a vida honrada,
Pede esmola à despedida…

Aqueles olhos sem fundo
Que ardem, febris, na utopia
De sorver a vida, o mundo,
No seu sôfrego clarão,
Passam três quartos do dia
Sonhando, brilhando em vão
Sobre uma triste costura,
Numa triste loja escura
Duma rua sem ventura
Com casas de perdição…

Aquele estranho maneta
Que aos muros passa cosido
Com seu sorriso pateta,
Seu coco mais seus fundilhos,
Na guerra foi distinguido,
Perdeu mulher, perdeu filhos,
Vai para a taberna andando
Em que, bebendo e fumando,
Vegeta cantarolando
Velhos torpes estribilhos…

Aquela mulher cansada
Que esfrega casas a dias
E é feia, má, desleixada,
Sempre tem quem goste dela!
Que horas mortas, noites frias,
Quem quer lhe bate à janela…,
E assim é que um filho dorme
No seu bambo seio informe
E outro no seu ventre enorme,
Já tem quem sabe que estrela…

Aquele pífio janota
Da bota de polimento
Põe no cabelo e na bota
Pomadas em que gastou
Dinheiro do seu sustento
Do jantar que não jantou.
Só assim chique se atrela
À esquina dessa viela,
Fitando aquela janela
A que ninguém se assomou…

Aquela esguia figura
Que sobe e desce a calçada,
Roça os homens, e murmura
Coisas que ninguém atende,
Quando entra, de madrugada,
No quartinho em que se vende,
Nem se atreve a olhar o espelho
De onde a espreita um rosto velho
Sob o fingido vermelho
Da boca em lanho que o fende…

Aquele pintor doente,
Que dizem ter muito jeito,
Vive num bar indecente
Em que o seu sonho requinta
E aumenta o seu mal de peito.
Não tem pincéis, não tem tinta,
E, se parece que reza
Olhando o mármore da mesa,
É a pintar, com certeza,
Os quadros que nunca pinta…

E aquele senhor poeta
Que anda bêbado na rua,
Tem filáucias de profeta,
Traz barbas de vagabundo,
Lança estrofes à lua
E dorme num vão imundo,
Contenta-se com tão pouco
Porque diz, bêbado e rouco,
Que os seus poemas de louco
Poderão salvar o mundo!
José Régio (1901-1969)

‘pra’ mim, tudo isto é “Literatura de Cordel”, melhor, é poesia de ‘Jogral’, talvez devido ao isolamento, a que foi, sempre devotado e ao pequeno numero de habitantes por Km2, o Alentejo conseguiu manter as suas tradições intactas, bem como a maioria dos seus usos e costumes, no qual incluo o seu ‘falar’ , seu ’cante’ e a sua gastronomia, desde os dias de antanho até aos dias de hoje.

 

Pode ver pelo dicionário colocado neste espaço, algumas das palavras do ‘falar’ Alentejano:

http://webintercam.spaces.live.com/blog/cns!185B8A0F5289E719!1277.entry

Ao ver o capote da figura, não posso deixar de ‘malembar’ dos tempos de escola, onde toda a rapaziada tinha um capote, como o da figura, ainda tenho um, tem na gola pele de raposa, que meu pai mandou colocar, para que eu não me esquece-se, do ano que reprovei.

 

 

Esta SAGA ao fim chegou 
E no arregaçar das mangas, 
Que num desafio começou
Com trabalho até ás tantas

Alentejano, Poeta
Qual rouxinol a cantar
Vives em terra deserta
Mas não deixas de sonhar

Teu Cante, é bem formoso
Cantar a muitos padrões
Tens um som harmonioso
Em tuas belas canções

Eu agora, pus-me a pensar
Que foi feito do passarinho
Que um dia ouvi cantar
Debruçado sobre o ninho

Tem cordel de realejo
Tem cordel de Cantadores
Tem Jograis do Sertanejo
Tem Trovadores e amores

Agora… e com estes… tenho a certeza …. Pirei de vez…

No próximo ‘post’ … vou escrever sobre África (Moçambique, “eu menino e moço dos 22 aos 24- no local, onde os homens também choram e gritam pela mãe, sem vergonha nem pudor”).

clik aqui para abrir o Link da canção que acompanhou o Post

Comentários a: "Vivências(4)…Continuação … e no arregaçar das mangas…" (1)

  1. Prezado Carlos Ferreira,
     
    Desafiei o Amigo
    p\’ra falar sobre Cordel…
    e com prazer, eu lhe digo:
    Adorei o seu papel!
     
    Sobre "Cordel", seu Abrigo,
    abriga um rico tesouro!…
    Esta "Saga", o nobre Amigo,
    fechou com "Chave de Ouro"!
     
    Parabéns, Carlos Ferreira! Esta humilde admiradora do Cordel, não tem palavras para agradecer-lhe por esta maravilhosa "saga"!  A minha hesitação em retornar ao "Espaço", termina aqui!  Sinto-me conclamada a reunir-me aos Amigos que jamais esqueci, e dos quais me encontro afastada, por questões particulares e dolorosas para mim!  Mas, não posso continuar distante por mais tempo, de uma convivência tão boa, saudável, e prazerosa!  Logo, logo, portanto, estarei reentrando no ar do "vivendo e aprendendo"!…
    E fique certo, meu Caro Amigo, que foi esta fantástica "saga", em 04 (quatro) capítulos, que me convenceu a reassumir o "posto deserto", cuja, aparência, confesso, mesmo depois de tanto tempo, ainda me causa estranheza! Ao Amigo, reitero o mais profundo agradecimento em nome dos meus Irmãos Nordestinos, por este valioso e lindo trabalho, feito com abnegação, maestria, generosidade, e poesia! Fica aqui, um grande abraço desta Nordestina e "cabra da peste", que tem o privilégio de fazer parte do seu grupo de Amigos. Sinceramente, Dilma Damasceno.

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