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Cabra da peste”, é como são chamadas as pessoas que nascem no Nordeste Brasileiro, pessoas corajosas, valentes e boas e que, desde cedo, enfrentam os problemas causados pela seca,.

Asa Branca

Quando oei a terra ardendo
Quá foguera de São João
{ Eu preguntei(ei) a Deus do céu, ai
Pru que tamanha judiação?}[bis]
Qui brazero, qui fornaia
Nem um pé de prantação
{ Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão}[bis]
Inté mesmo asa branca
Bateu asa do sertão
{ Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração}[bis]
Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
{ Espero a chuva cai de novo
Prá mim vortá pró meu sertão}[bis]
Quando o verde dos teus oios
Se espaia na prantação
{ Eu te asseguro, num chore não, viu,
Que eu vortarei, viu, meu coração.}[bis]

clik aqui para abrir o Link da canção

Asa Brancaé uma canção de autoria da dupla Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, composta em 1947. Foi cantada por Luis Gonzaga e posteriormente por vários artistas ( Fagner, Caetano Veloso) etc.

O tema da canção é a seca no Nordeste brasileiro muito intensa, a ponto de fazer migrar até a ave asa-branca, obriga um rapaz a mudar da região. Ao fazê-lo, ele promete voltar um dia para os braços do seu amor.

Tive conhecimento do poema e da canção por Dilma Damasceno (http://dd-vivendo-e-aprendendo.spaces.live.com/).

Na continuação, do desafio “do arregaçar das mangas” … depois da introdução em vivências (1) e após procurar as raízes da Literatura de Cordel, em que o Brasil é o fiel depositário e continuador das trovas jogralescas de antanho tentarei, mesmo que de uma maneira simples e pouco rebuscada, dar alguns exemplos desta simples, mas bastante elaborada maneira de se fazer poesia. (alvitro a todos aqueles, que se queiram debruçar sobre o tema, a visitarem o espaço da Dilma elas os receberá condignamente como uma Nordestina e amiga da Natureza o sabe fazer).

“O mundo parece ser feito de coisas que agente vê nele. Mas há outras que não vemos, embora existam. São as coisas que lemos. Elas estão escondidas no meio das letras. É preciso ler para que elas apareçam directamente em nossas cabeças.

Se não lemos, todas essas coisas que estão guardadas nos livros não aparecem para nós. Quem não lê, só vê uma parte das coisas do mundo.”

Extracto de um apontamento da capa “Dicionário dos Sonhos” de “J.Borges” neste seu livrinho de Cordel e produzido pelo Ministério da Edução do Brasil.

Em Vivências (1) falei de J.Borges hoje coloco aqui:

http://www.ablc.com.br/

Lenda do Caipora

Autor: Gonçalo Ferreira da Silva

A humana criatura
se pergunta insatisfeita:
_Como uma coisa existe
sem nunca ter sido feita? –
Quem prega não prova nada
quem escuta não aceita.

Diz a gênese mosaica
que Deus Pai Onipotente
disse: “Faça-se a luz”
e a luz obediente
do atro abismo do nada
surgiu repentinamente.

Assim também são as lendas
as vezes surgem do nada
ou como remanescência
duma cultura importada
que sempre sensibilizam
gente não civilizada.

De acordo com tais lendas
há o regente do mar,
o deus dos mananciais,
 o gênio que rege o ar,
e é de um desses gênios
que nós queremos falar.

Vivendo na intimidade
da aconchegante flora
como um guardião que zela
a quem mais ama e adora
é o protetor da fauna
o lendário caipora.

E o caçador prudente
ao conduzir o seu cão
antes de entrar na mata
deve, por obrigação
ao caipora pedir
a sua autorização.

Senão estará sujeito
a ser desafortunado
ou inexplicavelmente
ficar desorientado
andando em círculo na mata
por tempo indeterminado.

Outras vezes algo estranho
fica o cachorro sentindo
andando em torno do dono
se lastimando e ganindo
sem que o dono perceba
quem o está perseguindo.

Outro artifício que é
pelo caipora usado
é reter o cão esperto
infantilmente acuado
latindo muito diante
dum toco designado.

“Hoje não é o meu dia”
pensa imediatamente
o caçador convidando
o cão desobediente
que abana o rabo, entretanto,
volta a latir novamente.

Agora o caçador sente
um inexplicável frio
tenta dominar o medo
porém sente um arrepio
algo como um mudo aviso,
um sentimento sombrio.

Pedras à feição de trempes
bota na mata fechada
acende fogo dizendo:
_Vamos parar a jornada
só depois da hora-grande
reinicia a caçada.

Mas depois da hora-grande
incompreensivelmente
ouve o caçador um longo
assovio à sua frente
o caçador intrigado
escuta detidamente.

Gira sobre os calcanhares
segue oposta direção
mas não percorre uma jarda
tem ele a decepção
de saber que o assovio
já mudou de posição.

E assim pra todo lado
em que o caçador for
segue o assovio como
se o assoviador
se entretenha mangando
da cara do caçador.

Um caçador nos contou
um curioso ocorrido
um caso igualmente aquele
nunca tinha acontecido
dessa vez o caipora
se deixou ser percebido.

Quando entrou na mata virgem
repentinamente viu
três porcos-do-mato que
quando ele os pressentiu
os alvejou um por um
até que o último caiu.

Quando ia dirigir-se
aos porcos mortos no chão
um moleque apareceu
com um enorme ferrão
montado num porco-espinho
na densa vegetação.

E enfiando o ferrão
nos flancos dum animal
mandou-o se levantar
que o tiro não foi mortal
o porco saiu correndo
por dentro do matagal.

Repetiu com o segundo
essa mesma operação
e no terceiro também
ele enfiou o ferrão
os animais dispararam
sem vestígios de lesão.

A seguir o caipora
dirigiu-se a um ribeiro
simulando raiva disse:
_Vou amanhã ao ferreiro
consertar este ferrão
pra ele ficar linheiro.

Logo o caçador pensou:
“Amanhã eu vou ficar
na porta da oficina
ver se alguém vai chegar
com um ferrão como este
para mandar consertar”.

Chegando em casa, sequer
colocou da porta a tranca
num dos cantos da latada
colocou sua alavanca
e depois da sua esposa
acariciou a anca.

E foi dormir levemente
para acordar muito cedo
para saber se o ferreiro
conhecia algum segredo
porque durante a caçada
pra ser franco, teve medo.

O sol já estava alto…
o caçador conversando
com seu amigo ferreiro
sobre negócios tratando
quando avistaram um vaqueiro
que vinha se aproximando.

Quando o vaqueiro apeou
foi exibindo um ferrão
dizendo para o ferreiro:
_Tenho muita precisão
que conserte este instrumento
com a maior perfeição.

Sem querer teve o ferreiro
um leve estremecimento
mas consertou o ferrão
naquele mesmo momento
e disse para o vaqueiro:
_Eis aí seu instrumento.

Disse o vaqueiro: _ O ferrão
está como me convém
fitando o caçador disse:
_Preste atenção muito bem
o que você viu de noite
não conte nunca a ninguém.

Fim

Outro Autor … apontamento retirado na integra do sitio do mesmo.

Filho de pai (Manuel Gonçalves Souto Maior) comerciante e de mãe (Maria da Mota Souto Maior) fazendeira, nasci no dia 14 de julho de 1920, na cidade de Bom Jardim, Pernambuco, pelas mãos de sinhá Aninha, velha comadre muito conhecida e respeitada em toda a região. Fui um menino como todo menino nordestino. Chupei dedo, cacei passarinho e lagartixa com baladeira, joguei castanha na calçada, furtei goiabas e cajus, brinquei de Lampião e de António Silvino com frutos de jurubeba, tomei leite ao pé da vaca e comi muito nambu assado na fazenda Taperinha do meu avô materno Presciliano da Mota Silveira que, com os seus 97 anos, ainda faz muita proeza. Com nove anos de idade aconteceram duas coisas na minha vida: ganhei um velocípede e me botaram na escola da professora Santinha. Foi quando cometi uma falta muito grave: rasguei a carta de ABC (Paulina mastigou pimenta. Delfina comera araçás. A preguiça é a chave da pobreza. Que saudade…) e atirei na cara da professora, rebeldia que paguei com juros bem altos e por intermédio de uma tabica de jucá. Depois, o velocípede quebrou-se, fiz as pazes com a professora, passei para o Primeiro Livro de Leitura de Felisberto de Carvalho e para a Série Braga. Meu pai, que sempre foi um matuto muito inteligente, resolveu fazer o maior sacrifício de sua vida, comprando uma casa na rua do Hospício, no Recife e botando todos os filhos no Colégio Marista, onde passei oito anos, só saindo para fazer o curso pré-jurídico no Instituto Carneiro Leão, do Dr. César. Quando estudante no Recife fundei, com Guerra de Holanda, Nestor de Holanda, Pelópidas Soares, Sousa Leão Neto, Isaac Schachnick e outros, o jornal Geração e andei colaborando no suplemento literário do jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco, em Fronteiras de Manuel Lubambo, em Nordeste de Aderbal Jurema, em Esfera de Maria Jacinta, em Vamos ler. Convivendo com Ledo Ivo e Breno Accioly virei poeta e publiquei Meus poemas diferentes (1938), duzentos e cinquenta exemplares por duzentos e cinqüenta mil reis que meu pai pagou na tipografia do Sr. Maurício Ferreira, na rua do Rangel. Por essa época, quando fazia o Tiro de Guerra 303 da Associação Comercial, na rua da Imperatriz, a baioneta de um colega bateu no meu olho esquerdo com tanta força que ele nunca mais prestou, ficando, sem querer, colega de Camões, mesmo sem andar por mares nunca dantes navegados… Com a pancada do olho, fui passar uma temporada em Bom jardim onde meu pai era o perfeito. Aconteceu que houve um eclipse do sol e o poeta Gomes de Moura que era o secretário da Prefeitura, em homenagem ao fenómeno, tomou um pifão tão grande que passou três dias sem aparecer no trabalho. Fui nomeado secretário, ganhando quatrocentos mil réis. Desde os quinze anos eu tinha uma namorada (que é hoje a companheira de todos os momentos) que era minha prima e como o meu pai era inimigo político do pai dela, o namoro era tipo jacaré, à distância, às escondidas, nas missas de domingo, nas novenas de maio, no circo, no cinema mudo de António Lulu, carta vai e carta vem. Com o dinheiro do meu primeiro emprego comprei uma roupa de caroá e outra de carrapicho, umas camisas, um par de sapatos e guardava a sobra. Casei quando estava no terceiro ano de Direito e foi quando perdi o emprego. Fui nomeado promotor público de Surubim e, logo depois, exerci as mesmas funções na comarca de João Alfredo, onde passei oito anos. Com a família sempre aumentando fui obrigado a deixar a literatura, uma vez que a luta pelo feijão era muito mais importante do que a luta pelo sonho. Meti o pau a trabalhar. Fui perfeito de Orobó. (Naquele tempo o povo ficava com raiva quando se dizia que Orobó era a terra onde peru dava coice, candeeiro dava choque e onde o cisco fazia a curva), agente do Censo, vendi cestas de Natal e apólices de seguro, criei galinhas, advoguei, ensinei ciências e geografia no colégio das freiras e fundei o Ginásio de Bom Jardim destinado à rapaziada pobre de minha terra completamente entregue às actividades agropecuárias. É que eu tinha sete filhos, sete pares de queixos batendo três vezes por dia, além da roupa, calçado, remédio e instrução. Como em Bom Jardim existiam cinco chefes políticos e todos eles eram advogados, eu só pegava questão de pobre, de pouco ganho. Cheguei a ser advogado dos presos pobres ganhando uma ninharia por mês. Com meu irmão Moacir Souto Maior publiquei Roteiro de Bom Jardim (1954), uma monografia sobre a terra natal. Até que um dia a vida teve que mudar com minha nomeação para inspector federal de ensino, quando me vi obrigado a deixar tudo para rnorar na cidade grande. Voltei a escrever porque Mauro Mota, director do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, me pediu um artigo sobre folclore. Descobri, então, o mundo maravilhoso do folclore, o meu mundo de menino. E, como numa tentativa de voltar ao passado e também para matar a saudade, comecei a trabalhar no Cachaça no Presença do Alfenim no Nordeste Brasileiro, no Como Nasce um Cabra da Peste e nos que ainda estão sem título. Aí está a minha vida.

http://www.soutomaior.eti.br/mario/

nos links seguintes pode acompanhar a voz do autor.

http://www.soutomaior.eti.br/mario/arquivos/taperinha(11).wma

http://www.soutomaior.eti.br/mario/arquivos/deserto(2).wma

http://www.soutomaior.eti.br/mario/arquivos/poema(13).wma

 

Cabra da Peste, Poeta e Escritor Paraibano.Trata-se de Geraldo Xavier de Oliveira, de Itabaiana, atualmente residente em Vitória da Conquista, na Bahia, onde fixou residência e montou casa e família. Dono de uma veia poética inquestionável e além de explicitamente simpático, Geraldo gosta mesmo é de contar casos, sendo ele o primeiro a provar a "Origem Extra terrestre do Nordestino". É  membro da Academia Conquistense de Letras, cadeira 06, que tem como patrono Castro Alves. Dentre as obras que publicou, destaca A quadratura do Círculo – histórias – com publicação reduzida; Inéditos: O arco-íris nocturno (poesias, crónicas e casos), De onde viemos (romance jocoso) onde prova a origem extraterrestre do nordestino; Um olhar para trás (romance regionalista); Órfão de pai vivo (romance); A vila (romance); O reino de Qualquer Coisa (histórias sobre a origem da Democracia e do Capitalismo); Memórias de um amnésico (história curta); Joana e os loucos (peça teatral)

O ispêio
Geraldo Xavier
 

Zequinha de Filomena
marido de Manuela
foi um dia para a fêra
comprá as coisa prá ela.
Entre as coisa a sê comprada
tinha a mardiçoada,
a bendita da gamela.

A gamela inté foi fáci
di incontrá prá patroa.
Uma gamelona grande
pariceno uma canoa,
mai maió do qui beju,
toda feita im mulungu,
qui é madêra das boa.

Gamela, prá quem num sabe
li digo nesse momento
é adonde os povo bota
a cumida, os alimento.
Sem sê de barro ou de frande
é uma vazia grande
onde os poico come dento.

Dêxa a gamela prá lá
vamo falá de Zequinha
qui tinha ido prá fêra
prá fazê umas comprinha.
Só prá dona Manuela,
duas fita amarela
e um brinco prá mãezinha.

Tinha qui comprá tomém
prá sua mãe um nuvelo
de linha "corrente" branca
e prá dona Consuelo
ele tinha qui comprá
pelo meno um adidá
de ólho par’ os cabelo.

Chumbo prá caçá lambu,
meio quilo de toicim,
uma caxinha de grampo,
uma dúiza de afinim,
a goma de tapioca
levá prá dona Maroca
um quilo de mudubim.

Já depôi das compra feita,
de comprá tudo da fêra,
Zequinha ficô na praça
fazeno ar de lezêra
e parô numa barraca.
Foi quano tossiu a vaca,
foi quano ele fez bestêra.

Na barraca, bem surtida,
qui tinha tudo im premeio
foi qu’ ele viu uma coisa
qui tinha um lado vremeio
e o outo era brioso:
um obijeto formoso
qu’ os povo chamava ispêio.

Ele comprô o negoço
e ficô adimirado
num cansava de oiá
pru obijeto cumprado
e cada vez dava um ai,
pôi si alembrava do pai
qui há munto era finado.

Chegano im casa iscondeu
dento di sua maleta
prá num dá outo à muié,
nem fazê munta gazeta.
Sabia qui Manuela,
se visse, quiria o dela,
a coisa ia ficá preta.

E, todo dia, ele ia
oiá bem iscundidim.
Abria a mala e ficava
oiano no iscurim,
o coração dano ai.
Dizia: papai, papai
e bejava o ispeim.

Inté qui um dia a muié
passô a discunfiá.
Pru qui era qui Zequinha,
na hora di alevantá,
pensano qu’ ela drumia,
pegava a mala e abria
e ficava a muimurá?

Apruveitano qui um dia
ele foi par’ o roçado,
abriu a maleta e viu
o obijeto guardado.
Quano si viu no ispêio,
seus óio ficou vremeio
e cuage abuticado.

Gritô, chamano: – Mamãe,
venha vê a disgracêra,
qu’ o traste di meu marido
trouxe um dia da fêra!
Ô meu Deus, ô qui disgraça
mai hoje o dia num passa
qui eu faço uma bestêra.

– Vô preguntá pru safado
quano vortá da labuta.
Hoje aqui vai tê sangue.
Hoje aqui vai tê luta.
Vô preguntá: Ô marido,
pruquê tu trai iscundido
o retrato dessa puta?

Ele vai tê qui isplicá
tudo tintim pu tintim.
Mi isplicá a disfeita
qui ele fez para mim.
Pruquê, mamãe, no momento
acho qui meu casamento
parece qui foi ao fim.

A véia, tomém chorosa,
oiava a cara da fia,
agarrada no ispêio,
gritando: Jesus, Maria!
Inté qui num supetão,
pulou e tumô da mão
da fia, a quinquiaria.

E quano a véia oiô
no ispêio, qui ispanto,
ficô tremeno na hora
pariceno inté quebranto.
Caiu pru cima da fia,
quebrô a mão e bacia
e as dua caíro im pranto.

– Minha fia, qui disgraça!
O qui tem acunticido?
Eu vô tê qui cunvessá
cum o tá di teu marido.
Imagine ele trazê
dessa feia de morrê
esse retrato iscundido!

– Minha fia, seu casoro
acho qui num tem futuro,
todo seu amô pru ele
foi jogado no munturo,
s’ acaba de li trocá
pru outa qui é iguá
um maracujá maduro!

– Fia minha, mi adiscurpe
o qui tô li ispilicano.
Essa qui ele arranjô,
mi diga qui é ingano.
Cuma é qu’ ele trocô
você, pru esse istupô
mai feia qui Cuca Gano?

Quano Zequinha chegô
a muié fechô a porta,
arrancano a taramela
e a véia, cum a mão torta,
batero intão do rapai
e só num batero mai
pruquê tavam cuage morta.

Zequinha só apanhava
sem sabê quá a rezão.
Era pau, chicote e rêio
no lombo do cidadão
inté qu’ ele num guentô,
caiu, se isburrachô,
istribuchano no chão.

Quano Zequinha acordô,
consiguiu o zói abri,
a véia, d’ ispêi na mão
e a fia sem si ri
dissero: – Agora é luta
mai a foto dessa puta
você vai tê qu’ inguli.

Zequinha só pidiu água
rispirano feito fole,
pôi o ispêio na boca,
pensano qui era mole,
cum o zói isbugaiado
e a véia de oiá irado
dizia: – Vai, cabra, ingole!

Ele tentô inguli
mai o bicho num dicia.
Ele oiava prá muié
e a véia insistia,
cum o sembrante amuado:
– Ói aqui, cabra safado,
arrespeite minha fia!

– Agora você vai vê
uma muié de valô.
Trate de inguli tudo,
sem recei e sem temô.
O castigo qui sofrê
é pouco prá aprendê
a num sê namoradô!

Zequinha si ajueiô,
fez o siná, se benzeu,
pidiu pru todos os santo,
São Filipe e São Tadeu.
Cuage ia sufocano
cum mãe e fia impurrano
inté qui o bicho deceu.

Se inguli num foi fáci
imagine a saída.
Zequinha ficô desdia
cum a barriga criscida.
Cuage toda vizinhança
cada vez qui via a pança,
li chamava de parida.

Inté qu’ um dia, o coitado
precisô fazê aquilo.
Atrepô num cajuêro,
no mêi do mato, tranquilo.
Rezô prá todos os santo,
era choro, reza e pranto
sem ninguém prá acudi-lo.

Puracaso ia passano
ali pru pert’ um vaquêro,
qui ia atrás dum bizerro
fura-cêica e baguncêro
e, ao uvi os gemido
assuntô o sucedido,
a causa do disispêro.

Dibaxo do cajuêro
ele uviu o gemido
e quano oiô lá prá cima,
ficô munto istarricido,
meio bobo, meio mudo:
era um vaquêro cum tudo,
só qui meio invertido.

Como tava mei iscuro
ele acendeu um facho,
alumiô o qui viu,
ficô cum cara de tacho.
E aí vêi um istalo:
er’ um vaquêro, a cavalo,
de cabeça para baxo.

Ficô oiano prá cima
inté qui uviu um gemido.
Gritô: – Aima, apareça,
qui eu tô é privinido.
Foi quano Zequinha disse:
– Home, dêxe de tolice,
é eu qui tô intupido.

O vaquêro oiô di novo,
fitano a coisa no meio.
Oiô, tornô a oiá,
chêi de medo e receio,
já qui pru seu disispêro
ele, um pobre vaquêro,
num sabia o qu’ era ispêio.

Mai, mêrmo assim, arriscô
o seu parpite, na hora:
– Cumpade, tu tá lascado
pelo qui eu vi agora.
O qui tá atravessado
é um vaquêro amuntado,
inganchado nas ispora!

– Ispiano bem mió
oiano bem para a peça
posso li dizê agora
sem tê medo, sem tê pressa
e sem querê maguá-lo:
tô de ôio no cavalo
qui é qui interessa.

– Óia aqui, meu camarada,
essa coisa cuma é,
o vaquêro, no teu rabo
parece qui tá im pé.
Si isprema inté rangi,
qui si o cavalo saí,
pago o preço qui quizé!

Sites visitados:

http://www.cabrasdapeste.hpg.ig.com.br/principal1.htm

http://www.ablc.com.br/

http://www.joraga.net/gruposcorais/pags/02outrasObrasX.htm

http://www.ceara.com/

http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://tadechuva.weblog.com.pt/arquivo/rosa/rosa.bmp&imgrefurl=http://tadechuva.weblog.com.pt/arquivo/_no_solar_da_rosa/index.html&h=493&w=313&sz=453&hl=pt-PT&sig2=9JRoIzKf4NVVEUPK-tN8Gg&start=6&tbnid=I55cTipNGkVM2M:&tbnh=130&tbnw=83&ei=UdBFRc7oFL-4SZ_1mMIK&prev=/images%3Fq%3Dfado%2Bvadio%26svnum%3D10%26hl%3Dpt-PT%26lr%3D

http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=312&textCode=795&date=currentDate

http://www.maricell.com.br/maricell_md.htm

Não quero deixar este post sem umas linhas sobre os Repentistas. Quais Jograis dos dias de hoje, na realidade turística do Nordeste Brasileiro.

Os Repentistas

O que são os "Repentistas"? Uma dupla que improvisa (o "repente"), sobre os mais variados temas, ao som de uma música extremamente simples -quase monótona tocada em violões ou violas, que invariavelmente denotam um uso excessivo.
Enquanto uma toca o vilão ou a viola, o outro improvisa. Ao final de um verso de geralmente seis a dez linhas, o outro começa a improvisar e quem estava cantando passa a tocar. Os turistas viram "doutor" e "doutora", e são objecto de comentários produzidos pela prodigiosa imaginação dos repentistas; os melhores garantem uns dez minutos de gargalhadas, tanta sua criatividade. 
O repentista em geral fixa seu preço -dependendo do número de pessoas na barraca cantando, ao fim do seu show. Um casal pode dar, por uns minutos de show, algo entre R$ 5,00 e R$ 10.00 para a dupla. Grupos maiores chegam a dar R$ 10,00 para cada repentista. Depende de quanto você desfrutou o show.

Abordagem

O repentista não pede autorização para começar seu show; aproxima-se da barraca e começa cantar. Ao fazê-lo apontará ao integrante da plateia ao qual se referem seus comentários e dirá algo elogiando alguma qualidade, real ou suposta, do turista. 
Se você não quiser o "serviço" simplesmente faça um gesto indicando que não deseja ouvi-los e se retirarão sem qualquer problema. Mas pelo menos uma vez faça a experiência (geralmente são todos muito bons, mas para não arriscar ouça-os primeiros numa barraca vizinha e depois chame-os).  
Se tiver câmara de vídeo, filme-os. Vai adorar mostrar aos seus amigos os comentários que a dupla fez sobre você e seus acompanhantes.

Junto parte do artigo descrito em:

http://www.infonet.com.br/versoseviola/cantoria.htm#topo

A poesia, atravessando a fase colonial, veio alcançar seu apogeu na pequena Paraíba de Augusto dos Anjos e de José Américo, pois quiseram as divindades do Olimpo que, naquele torrão, bendito pelas sacrossantas musas di longinquo Parnaso, nasceram os maiores cantadores que tem notícia na história do folclore nacional.

"No Nordeste, os jesuítas catequizavam por meio da poesia por ficar mais fácil de conservar a mensagem na memória, seguindo assim o estilo da Grécia Antiga".

Ninguém melhor do que o cantador, pode sentir a variedade de quadros de que o cotidiano nos apresenta. Traz dos sertões para as cidades o retrato da natureza, na sua expressão criadora, bem como o do rigor que castiga dentro de suas leis imutáveis.

No entender de alguns estudiosos (intelectuais) o cantador tem uma imagem completamente distorcida da sua formação verdadeira. Isto porque já foi registrada a presença de cantadores caracterizados de vaqueiros, por incumbência de pessoas que fazem folclore com pouca profundidade no assunto. Então havemos de concluir que o cantador, o legítimo repentista, e o mais feliz dos imortais, porque seu mundo não é o da maldade, não é do egoísmo, e, sim, o doce paraíso das imaginações criadoras. Citaremos a sábia e patriótica expressão de Antônio Girão Barroso, conhecido escritor cearense: "Ai do país que abandona as raízes da cultura".

A cantoria de versos* improvisados ao som da viola é uma arte que floresceu no meio rural do Nordeste, especialmente no sertão, e que só aos poucos vem conquistando público das grandes cidades. A razão principal desse fato e possivelmente, o número crescente de pessoas que se deslocam do interior para as metrópoles em busca de melhores condições de vida, e levando consigo hábitos culturais profundamente enraizados.

"No começo deste século, a figura tradicional do cantador era a do indivíduo de inteligência aguda, escassas condições financeiras, muitas vezes analfabetos ou pouco letrados, cantando de feira em feira seus versos* geniais que garantiam a própria subsistência".

Embora o tema – nomes e datas fundamentais em torno dos poetas populares no Nordeste – já tenha sido rastreado por numerosos autores, vamos resumir o que Atila de Almeida condensou, a propósito, em recente ensaio intitulado "Requiem para a Literatura Popular em verso*, também dita de cordel", in "Correio das Artes", João Pessoa, 01.08.1982.

"1830 é considerado, historicamente, o ponto de partida da poesia popular nordestina. Em torno dessa data nasceram Urgulino do Sabugi – o primeiro cantador que se conhece – seu irmão Nicandro, ambos filhos de Agostinho da Costa, o Pai da Poesia Popular".

Nascidos na Serra do Teixeira (PB), entre l840 e 1850, foram seus contemporâneos os poetas Germano da Lagoa, Romano da mãe D’Agua e Silvino Pirauá. E já contemporâneos destes, Manoel Caetano e Manoel cabeleira. São os mais antigos cantadores conhecidos, todos chegando a década que se iniciou em 1890. A década que começou em 1860 viu nascer grandes nomes, como João Benedito, José Duda e Leandro Gomes de Barros. Mais adiante, na década que se iniciou em 1880, nasceram Firmino Teixeira do Amaral, João Martins de Ataíde, Francisco das Chagas Batista e Antônio Batista Guedes.

Diferente do que acontecia em qualquer parte do Brasil, sabe-se que no Nordeste, o cantador independia de acompanhamento. No fim de cada pé, terminando-se cada linha do verso*, dava um arpejo na viola ou rebeca. Entre um verso*(estrofe*) e o seguinte, entoado pelo antagonista executava-se algum trecho musical, alguns comparsos.

"Os velhos cantadores do Sertão Nordestino do Brasil só tocavam as violas ou soavam os pandeiros nos intervalos dos cantos. Desafio* simultaneamente acompanhado da viola é posterior a 1920 " .

" Nossos repentistas, cantadores e poetas populares, foram, no entanto, até cerca de 1920 ou de 1930, uma expressão de intelectuais dos sítios, das fazendas, das vizinhanças, do mundo em que vivera. Os desafio*s dos violeiros são tão velhos quanto o mundo" .

A viola, como as demais criações do homem, tem sua presença marcante desde sua criação, até os dias atuais. A viola é um instrumento de caráter onomatopáico*, embora haja quem lhe atribua origem germânica. É a designação genérica de uma família de instrumentos de corda, tocados com arco de crina, produzindo som mais melancólico, menos claro e de timbre nasal.

O primeiro instrumento do cantador sertanejo parece ter sido a viola, menor que o violão (guitarra espanhola), do qual não há notícia, entre nós, antes do Sec. XVIII. A viola de pinho, viola de arame, com 5 ou 6 cordas duplas, é citada entre outros aqui, pelo Padre Fernão Cardim. Antigamente, depois de cada vitória o cantador amarrava uma fita colorida em suas cravelhas*.

Entre os poetas populares, ainda preserva-se algumas supertições quanto ao uso da viola. Diz-se que esse instrumento sofre a influência da lua. Na lua nova e na força da lua não se guarda viola afinada, porque ela pode ficar corcunda, entortar e rebentar as cordas. Madeira para viola deve ser cortada nos meses que não tem "r": maio, junho, julho e agosto, e na minguante, para nunca apanhar caruncho*.

Há um certo consenso entre os cantadores, que o repentista que se preza não carrega viola debaixo do braço, e sim, na mão, segurando-a pelo braço. A viola é uma mulher e quem sai com ela na rua, a leva de braço dado. A axila é lugar de escorar a muleta e não a viola, que carregada debaixo do braço fica reumática, não afina mais, fica mancando das cordas.

Na continuação iremos até ao 4º e final sobre este tema, bem bonito, em que fui desafiado, por uma Cabra da Peste.

I

Se continuas a SAGA,
aplaudo, de viva voz…
pois, no Cordel, se propaga,
a SAGA de Todos Nós!

II

A saga de todos nós
num Cordel de muito querer
aqui a deixo pra vós
porque Jogral, não sei ser

Vos deixo apontamentos….
de trovadores e Repentistas
mas foi um cabo dos tormentos
compilar tudo, sobre os artistas.

São artista de mão cheia
esses ‘Cabras da Peste’
que no Cordel criam teia 
pro lados do Nordeste. 

Eu a dar em poeta!… Ena!…, agora é que foi de vez … pirei…

Para escrever este ‘post’ me socorri da Net e dos seus motores de busca em especial do Google.

A um caderno de cordel de J.Borges “Dicionário dos Sonhos e outras histórias de cordel”, oferta de um Pernambucano de Caruarú, Fábio Mário a fazer mestrado na Universidade de Évora em Literatura Lusófona.

A Lana Lacerda de Lima, Médica em Pau de Ferros cidade do interior do Rio Grande do Norte, que me ofereceu “ PAPO JERIMUM” dicionário rimado de termos populares de Cleudo Freire, para eu poder entender ‘direitinho’ o Nordestino.

Crescer, desenvolver é disarná
Quem não cresce fica incruado
Ali mermo ele topo
Tá encolhido, teso, tá incriquiado

E Dilma Damasceno , “lendo, escrevendo, fantasiando, e me cercando de natureza. Converso com meus animais de estimação, converso com familiares e amigos, trabalho bastante, e assim, a vida vai passando, quase sem doer! Mas, como sou humana, às vezes me encolho num casulo. Então, penso, repenso, e quando ouso sair e voar, na "imaginação" realizo meus sonhos remanescentes, de forma plena e delirante! Prefiro continuar assim! Em verdade, já me acostumei com essa liberdade de ser só”, Ilustre Advogada em Natal, capital do rio Grande do Norte. A grande amiga que me tem iniciado noutra visão do Brasil e em especial do seu querido Nordeste. (http://dd-vivendo-e-aprendendo.spaces.live.com/).

clik aqui para abrir o Link da canção

Já só falta a parte 4… é já a seguir… O Cordel Alentejano… tambem existe?…

Comentários a: "Vivências(3)…Continuação … e no arregaçar das mangas…" (2)

  1. Meu querido amigo!
    Nem eu, que aqui nasci, tenho tanto carinho por esse pedaço de mundo como o que tu demonstras ter… Surpreendes-me e fascinas-me com as tuas criatividade, generosidade e sensibilidade.
    Gosto mesmo muito do teu "space". Como sabes, amo também o teu Nordeste, que é completamente diferente do meu!
    Somos expressão dessa diversidade…
    Bjussssssssss
    Elivan 

  2. Amigo Carlos Ferreira,
     
    Sou mesmo, "Cabra da Peste",
    E falo "isso", orgulhosa!
    Adoro ler meu Nordeste…
    Seja em verso, seja em prosa!
     
    Com prazer, me reporto à indagação:
    "E o cordel alentejano… também existe?"
    – Mas, é claro que sim! E aqui, meu coração
    se declara: ora alegre… e ora triste!…
     
    Alegre, em ouvir e ver,
    esse louvor puro e certo!… 
    Triste, por não conhecer
    o "Alentejo", de perto!
     
    Nobre Amigo: O "Alentejo",
    Além de, "amigo do peito",
    Tem cordel de "realejo",*
    P\’ra ninguém, botar defeito!
     
    * "Realejo", para nós, brasileiros, além de ser um instrumento musical, também é visto como "uirapuru", um pássaro tido como particularmente melodioso, musical, e diverso do de outra ave qualquer, a ponto de, segundo a lenda, os outros pássaros todos se calarem para escutá-lo!
     
    Receba um grande abraço da sua amiga que tem coração sertanejo e alma camponesa, e que, com certeza, já nasceu "enfeitiçada" pela doce magia do cordel… Dilma.
     
     

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