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Vivências (1)

Recuar no tempo … para me recordar da lenga lenga de cordel e da cançoneta a condizer, tenho de recuar no tempo, 50 anos… estou com 5 anos de idade o meu irmão tem 3, estamos no mercado abastecedor de frescos da cidade de Évora, entalado entre o Jardim Público e o Regimento de Artilharia Nº 3, hoje um pólo da Universidade. Junto ao grande portão verde, que dá entrada para a zona das bancas das hortaliças e dos talhos, está a banca dos bolos… aqueles bolos de mel que minha mãe compra e leva para casa (passaram 50 anos e é como se fosse o momento, tal é o cheiro e o sabor do bolo… a memória é um espectáculo), ao lado está uma mulher vendendo brinquedos, automóveis feitos em lata, pombinhas de madeira com umas rodinhas que quando puxadas dá ás asas e umas grandes camionetas de madeira… coisa certa, ninguém dali arreda pé, enquanto duas camionetas não vierem debaixo dos braços dos manos…dito e feito…mas fiquei embasbacado…com o casal que estava junto ao portão, onde todos tinham de passar… um homem vestido de negro, camisa, casaco e até um grande chapéu era preto, estava sentado num banco, de perna trocada, com uma viola nos braços, a seu lado, uma mulher forte, grande, de cara vermelha e cabelo comprido, encaracolado e ruivo, vestia um vestido branco sarapintado de flores azuis e amarelas a voz dela era rouca… contava a história de uma moça que se tinha encantado por um homem, ela tinha fugido de casa, mas o pai (dela) foi ao seu encontro e ela e o seu amor morrem de morte-matada. Depois a Mulher cantou uma lenga lenga dessa história enquanto era acompanhada pelo homem que ia dedilhando a viola…no fim vinha ter com o povo que ficava ouvindo a cantadeira e vendia uns folhetos com algumas ilustrações e as quadras que tinha cantado… eu gostei daquilo… mas das muitas vezes que voltei ao mercado, nunca mais ouvi cantar as lengas lengas… um dia, já casado e na feira de Barcelos, voltei a encontrar uma cantadeira com um tocador, desta vez de concertina, mas aí, já sabia na presença do que estava… e até me dei ao luxo de explicar à Rosa, como eram os versos, que iam das quadras ás decimas… e que aquilo era o que se chama literatura de cordel… o porquê do nome…e quais as raízes das cantilenas… (um dias destes escrevo aqui sobre as “cantigas de amor e mal dizer” em que um dos expoentes, foi o nosso rei D. Dinis (cantigas Provençais).

Porque recuei até á minha infância… por me recordar das compras no mercado, dos brinquedos, das gentes daquele tempo… das vizinhas da casa dos meus pais… dos amiguinhos da rua, do primeiro dia de escola… até, do meu primeiro cão, um Setter de nome ‘Dike’…Porquê? Porque uma amiga ( Dilma Damasceno ) tem um espaço (http://dd-vivendo-e-aprendendo.spaces.live.com/) e de muito escrever e se esforçar para dar conhecimento a alguns gentios, do abundante cancioneiro ‘cordelista’ e de seus autores e ao mandar por e-mail, uma parte falada (cantada) dessa riqueza folclórica da sua Região … aí me vieram as recordações da infância… onde nas feiras, eu encontrava essas cantadeiras descrevendo as aventuras ou desventuras de alguém. (Nada mais disto se encontra por aqui) … e por um Pernambucano me dar de presente um livrinho dessa literatura de cordel de um tal J.Borges, nascido em 1935, Pernambucano, do município de Bezerros, que na sua carreira de Repentista já criou mais de 400 cordeis, sendo ele próprio o ilustrador com xilogravuras por si criadas e como o próprio diz:

 

Aos doze anos eu era
Forte, esperto e nutrido.
Vinha do sítio de Piroca
muito alegre e divertido
vender cestos e balaios
que eu mesmo havia tecido.

 

Passava os dias na feira
e à tarde regressava
levando umas panelas
que minha mãe me comprava
e bebendo água salgada
nas cacimbas onde passava
………..
No bolso eu já levava
Um folheto do Pavão
Comprado a João de Lima
Por pouco mais de um tostão
Que ao chegar em casa
Era a minha diversão.

 

Deita-me numa rede
lia o folheto e relia
e ainda sobrava tempo
para ir a olhar a Fia
minha primeira namorada
que muito bem me queria.
………….
Em dez meses aprendi
ler, escrever e contar
No melhor da aprendizagem
Fui obrigado a parar.
A escola acabou-se
Não pude mais estudar.

http://www.pousadapeter.com.br/indexfotos_xilogravura_f._borges_xilogravuras_cordel_pernambuco_cordeis_nordeste_brasil.htm

A literatura de cordel é um tipo de poesia popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome. São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola.

 ORIGEM DA CANTORIA, CANTADOR E DA VIOLA

A nossa poesia popular floresceu em Provença, sul da Franca, no Século XI, através dos trovadores Regreis e Jograis. Na Espanha a poesia floresceu através dos palacianos. Foi em Homero, maior dos rapsodos, cantando as façanhas de Ulisses diante de Circe e do gigante Polifemo, que Virgílio encontrou a fonte inspiradora para a realização de sua obra monumental.

Eram os trovadores da Provença, que levaram a alegria aos senhores feudais, enclausurados nos seus castelos de guerra. Enfim, foi Dom Diniz, maior monarca da Dinastia de Borgonha, que se proclamou discípulo dos provinciais, em suas cantigas de amigo e de amor. Todavia, ninguém melhor do que o poeta António Ferreira, de Portugal, falou de sua grandeza, quando disse: Regeu, edificou, lavrou, venceu, honrou as musas, poetou e leu".

A fusão da poesia local portuguesa com a poesia dos Trovadores Jograis de Provença fez surgir novas formas poéticas de linguagem de seus famosos poetas: João Soares de Paiva, Paio Soares de Traveiros e outros. "Mas, coube ao Brasil o privilégio do aparecimento do legítimo cantador de Viola, com Gregório de Matos Guerra, que deixava a Universidade de Coimbra fazendo verso* de protesto a direcção daquele estabelecimento de ensino. Nascido na Bahia, no Sec. XVII e o primeiro doutor brasileiro. Seguido pelo Padre Domingos caldas Barbosa.

As Decimas… muito usadas no Alentejo pelas gentes trabalhadoras do campo

Mote

Homens de alta competência
Que se empregam na leitura
Vêm mostrar a ciência
No novo Celeiro da Cultura

I
Vejo a arte definida
Nos faz gozar o sofrer
Mas na forma de escrever
É o bem que tem na vida
Há muita gente instruída
Até no ler há diferença
Com saber e resistência
Mostram grande habilidade
Fazem ver à sociedade
Homens de alta competência

II
Com a regra da aprovação
Mostram a boa vontade
Esclarecendo a verdade
Sem ponto de interrupção
Seja ruim, seja bom
Sempre mostram figura
Esta é a água mais pura
Tanta a gente vai beber
Nesta casa esclarecer
Que se emprega na leitura

III
Pode ser um bom professor
Até pode ser engenheiro
Já tenha corrido o estrangeiro
Só eu sou o mais inferior
Não deixo de dar valor
Ouvir falar consciência
Tudo tem a preferência
De vir a este lugar
Para o dote mostrar
Vêm mostrar a ciência.

IV
Com boa formação
Vem gente de qualquer lado
Para tudo ser respeitado
Tudo ouve essa lição
Com a melhor atenção
Digo em qualquer procura
Sendo esta a maior censura
Para qualquer entender
Aberto para toda a gente ver
No novo Celeiro da Cultura.

Sebastião Perdigão,
Abril 2000

No começo deste século, a figura tradicional do cantador era a do indivíduo de inteligência aguda, escassas condições financeiras, muitas vezes analfabetos ou pouco letrados, cantando de feira em feira seus versos ‘ geniais que garantiam a própria subsistência’. E que improvisava ao som da viola.

Tambem se encontra no fado…

O fado da Severa

Letra e Música: Sousa do Casacão – 184?

Chorai, fadistas, chorai,
Que uma fadista morreu,
Hoje mesmo faz um ano
Que a Severa faleceu.

Morreu, já faz hoje um ano,
Das fadistas a rainha,
Com ela o fado perdeu,
O gosto que o fado tinha.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe sofreu,
Quando lhe foram dizer:
Tua Severa morreu!

Corre à sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
Adeus oh! minha Severa,
Boa sorte Deus te dê!

Lá nesse reino celeste
Com tua banza na mão,
Farás dos anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.

Até o próprio S. Pedro,
À porta do céu sentado,
Ao ver entrar a Severa
Bateu e cantou o fado.

Ponde nos braços da banza
Um sinal de negro fumo
Que diga por toda a parte:
O fado perdeu seu rumo.

Chorai, fadistas, chorai,
Que a Severa se finou,
O gosto que tinha o fado,
Tudo com ela acabou.

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/fado_falado.wma

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/fado_da_cigana.wma

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/fado_da_tendinha.wma

e do Brasil

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/mu…

http://www.aminharadio.com/radio/cantores_radio/musica/rei_do_gatilho.wma

A saga vai continuar…….. já que arregacei as mangas….

Comentários a: "Vivências (1)" (1)

  1. Grande matéria! Nossos Poetas Repentistas e Cordelistas, precisam disso! Eu, que sempre fui admiradora fiel desse estilo de poesia, fico feliz em constatar que o Cordel continua vivo, e presente!  E porque o tema me deixou bastante empolgada, ouso formular uma quadrinha, em sintonia com a promessa feita aos Amigos, Visitantes, e Leitores, pelo Proprietário do construtivo Espaço "Alentejano e Eborense", Carlos Ferreira:Se continuas a SAGA,aplaudo, de viva voz…pois, no Cordel, se propaga,a SAGA de Todos Nós! Um
    grande abraço, e meu agradecimento ao Amigo, em nome dos Poetas
    Repentistas do meu Nordeste de "Cabra da Peste"!  Sinceramente, Dilma
    Damasceno.

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